Relatório aponta que ambiente político derruba investimentos no Brasil

Um relatório divulgado na segunda-feira, dia 21, pelo Monitor de Tendências de Investimentos Globais da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em inglês) apontou que o Brasil teve uma redução de 62% na entrada de Investimento Estrangeiro Direito (IED) em 2020. Foi a maior queda registrada entre os países da América Latina e Caribe, que teve uma redução de 45% nos investimentos estrangeiros, a maior queda entre as regiões emergentes do mundo, aponta o documento.

O país perdeu inclusive o posto de maior destinatário de recursos da América Latina. Se em 2019 o país recebeu US$ 65 bilhões (aproximadamente R$ 324 bilhões) em IED, ano passado o Brasil recebeu apenas US$ 25 bilhões (R$ 125 bilhões). Com investimentos US$ 29 bilhões (R$ 145 bilhões), o México é agora o país mais bem colocado da região.

Em entrevista ao portal Sputnik, o superintendente de Estatísticas Públicas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Aloisio Campelo Júnior, explica o que vem acontecendo com a economia do Brasil, que caiu da sexta posição para a 11ª colocação nesse ranking no intervalo de apenas um ano.

Ele destaca que o efeito da pandemia do coronavírus na saúde e na economia dos países da região foi muito grande, com muitos deles nas primeiras posições do mundo na proporção de mortes por Covid-19, além da subnotificação em muitos deles.

– A pandemia afetou muito esses países e com ela veio uma incerteza grande sobre a política econômica. A incerteza leva a que investimentos sejam travados. Na dúvida, você prefere reter o seu recurso e não investir. São países que, antes da pandemia, não estavam em uma fase muito exuberante em termos de crescimento e, na sua maioria, com vários problemas internos, e alguns com problemas políticos também. O Brasil está em linha com o que aconteceu na América Latina, só que a queda foi maior ainda.

O especialista explica que, para além da incerteza econômica e do grande impacto que a pandemia teve no país, o Brasil vive uma incerteza política muito grande. “Há um ambiente muito conturbado no Brasil desde que se iniciou a Operação Lava Jato, operação contra corrupção, (que) investigou crimes de colarinho branco (…). A operação atingiu diversos níveis, diversos partidos, e (…) culminou com a eleição do presidente Bolsonaro, que é um presidente que gosta de governar criando um clima não tão agregador”, comenta.

Mas ele ressalta que após o acordo com centrão (bloco de partidos da Câmara dos Deputados que não possui uma orientação ideológica específica), Bolsonaro possui um apoio no Congresso que permite que os investidores prevejam mais tranquilidade para o restante do seu governo. “Isso deu melhores perspectivas para os próximos anos”.

Ainda assim, há entraves, políticos e econômicos, que deixam os investidores com um pé atrás. “O governo tem ido de uma forma um pouco devagar na sua agenda econômica. A impressão que dá é que o governo tem uma agenda muito grande (…) na parte de costumes, de outras questões não econômicas, e a equipe econômica termina ficando sem muito respaldo para tocar adiante suas propostas no Congresso”, enfatiza.

Mas Júnior acredita que mesmo com os entraves a queda do Brasil para a 11ª colocação é temporária e que devemos em breve voltar para a posição anterior. O especialista da FGV comenta alguns sinais de que este ano e o próximo serão melhores para o país.

Segundo o especialista, houve uma melhora nos últimos meses, sendo que a magnitude do pacote emergencial do Brasil foi bastante robusto, o que fez com que a economia desse uma acelerada expressiva em um primeiro momento. “O PIB (Produto Interno Bruto) caiu 4,1% ano passado, a previsão este ano são de 5% ou mais, não é um desempenho asiático, mas é uma saída de recessão melhor que a média da Europa”, frisa.

Além disso, Júnior destaca que a relação dívida-PIB não aumentou tanto como se previa, e, por causa da inflação e do reajuste no limite imposto pelo teto de gastos, o governo poderá gastar mais este ano e em 2022.

Foto: Reprodução

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