“La Mano de Dios” levou o Pibe

Na edição passada me comprometi em falar sobre o mal psicológico que acomete o nosso pseudopresidente da República, mas adiei esse papo para a próxima semana. É porque um personagem, que em termos de importância real, dista anos luz do capitão reformado, é o dono das linhas desta semana.

Quando jovem, um livro, que considero imprescindível para nos entendermos historicamente, e que me marcou foi “As Veias Abertas da América Latina”, do uruguaio Eduardo Galeano. Acredito que quem leu este livro, entende com muito mais facilidade a importância de Maradona, que extravaza dos campos de futebol. Ele não era apenas argentino, embora fosse muito argentino. Ele era continental. Não apenas o gênio da bola, da raça, o melhor dos melhores. Estava acima disso. Estava além do futebol.

Nesses dias, dezenas, talvez centenas de comentaristas esportivos mundo afora, tentam definir Maradona. Um sujeito que influenciou e encantou gerações, e confesso, sou um desses que foi encantado pela arte, pelo carisma e pelo magnetismo do artista genial. Que não chamam de ‘rei’. Preferem denominá-lo deus, ou semideus.

Um menino que veio de uma favela, as ‘vilas miséria’ – como são chamadas essas comunidades naquele país, e ganhou o mundo. Ganhou o universo. Um deus de carne e osso. Humano. Diferente da maioria da sua estirpe de ídolos do futebol teve sempre a coragem de denunciar e bater de frente com os donos do mundo futebolístico, com os donos do mundo em geral.

Quando elevou a autoestima dos napolitanos, naquela parte da Itália que é desprezada e sofre preconceito como uma coisa menor, ele virou um herói daqueles italianos, torcedores ou não do Nápoli. Agora é nome do estádio da cidade. Estádio Diego Armando Maradona.

E foi com essa ousadia e liberdade que longe dos modismos e fraquezas, e dando as costas às falsas esfinges políticas, que mostrou claramente de que lado estava. Assumiu suas preferências chegando a tatuar na pele o rosto de um conterrâneo ilustre e histórico. Um médico chamado Ernesto, um certo ‘Che’. E mais tarde repetiu assumindo Fidel e outros ícones progressistas do continente.

Foi a senha para que a mídia comercial, ao se referir a ele fora do futebol fosse sempre para mostrar o pior lado de sua vida. A sua dependência às drogas e ao álcool, as brigas, como se isso fizesse dele um mau caráter, um bandido. E tinham um prazer sádico em gravá-lo como um mau exemplo para os jovens. Claro que Maradona errou. Era humano, mesmo sendo Deus.

Diego Maradona era um Gardel, um Neruda, um verso de tango, um borracho, um anjo torto, um gauche de Drummond, um desnorteado, uma vítima, um ousado lutador, um milongueiro, uma Mercedes Sosa, um apaixonado, um drogado, uma Nina Simone, um cara bom, um craque que ao partir levou com ele um futebol que não existe mais. Certamente, na vida e na arte, estava mais para Garrincha, o anjo das pernas tortas, do que para Pelé, o rei.

Pepe Guardiola ao comentar a morte de Maradona lembrou um cartaz que certa vez lera e que dizia: “Não importa o que Maradona fez com a vida dele, o que importa é o que ele fez da nossa”. É isso.

E termino como comecei, com o mestre Eduardo Galeano. Um texto que anda pelas redes sociais nesses dias horríveis, desse incrível e assustador 2020:

“Nenhum jogador consagrado tinha denunciado sem papas na língua os amos do negócio do futebol. Foi o esportista mais famoso e popular de todos os tempos quem rompeu barreiras na defesa dos jogadores que não eram famosos nem populares.

Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas cinco minutos os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou.

Diego Armando Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. Qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas: mulherengo, beberrão, comilão, malandro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável.

Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam.

Ele jamais conseguiu voltar para a anônima multidão de onde vinha.

A fama, que o havia salvo da miséria, tornou-o prisioneiro.

Maradona foi condenado a se achar Maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório.

Mais devastadora que a cocaína foi a sucessoína. As análises, de urina ou de sangue, não detectam essa droga.”

Foto: Cadaverexquisito/Reprodução

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