Cultura black/charme: em busca de valorização e espaço

Tem crescido nos últimos anos uma cultura de valorização das raízes negras, assim como, políticas de reparação dos danos causados pela escravidão no país. É bem verdade que nem todos os grupos assentem a essas mudanças e novas posturas. Contudo, sempre é bom registrar e reafirmar fatos e eventos históricos, uma vez que, a memória também é um lugar de disputa de narrativas.

Resende possui um passado ligado à escravidão. A cidade fez parte do ciclo do café e abrigou escravizados em seu seio. Quase esquecida e negligenciada é a história de “mano Elói”, descente de escravizados, morador de Resende que foi para a capital “tentar a vida” e ajudou na fundação de escolas de samba e difusão do ritmo musical. Nunca é demais lembrar que esse ritmo, assim como, chorinho, pagode e outros que envolvem a percussão e demais instrumentos possuem suas raízes na história dos escravizados e estão ligados, portanto, à cultura negra.

Não é só desses elementos que a cultura negra (cultura black) sobrevive. A partir dos anos 1970, aproximadamente, o mundo vivenciou um intercambio mais intenso de cultura. Nos Estados Unidos na década anterior o movimento pelos direitos civis e de reivindicação de uma cultura negra autêntica ecoou em várias partes do mundo. Com isso o afluxo de ritmos (africanos, caribenhos, latinos) fez com que a cultura negra ganhasse nova roupagem. Nesse sentido, os chamados bailes black começaram a fazer parte do cotidiano dos jovens pobres das periferias estadunidenses. Por conta da globalização essa influência chegou no Brasil e influenciou a juventude negra daqui em vários locais.

Em São Paulo o palco de encontro foi a chamada estação São Bento. Concomitante a esse movimento determinados bailes eram promovidos visando reunir a “massa” de jovens que queriam diversão; afirmação de seus valores e construção de sua identidade. Talvez os bailes mais conhecidos foram os da “Chic Show” (tema de documentário na Globo Play).

Já no Rio de Janeiro a praça Mauá foi o palco de encontro no centro da cidade. Nos diversos bairros as pistas foram improvisadas em baixo de viadutos como é o caso de Madureira, Realengo e Cascadura. Um dos pioneiros nesse movimento é o DJ Corello, que até hoje promove encontros e bailes black.

Por ter um estilo dançante ligado à cultura estadunidense e às lutas de afirmação afro o estilo foi denominado charme, ou ainda, black/charme trata-se de um movimento de afirmação de valores da cultura negra. A estética com cabelos grandes, as roupas os discursos de não subsunção aos padrões formais foi constituindo um movimento de resistência musical, política e estética do movimento.

Resende também possui sua cultura ligada a esse movimento. Já no final dos anos 1970 DJ´s como Claudinho Freitas embalaram festas nos bairros e clubes da cidade por meio dos discos de vinil. A juventude, pobre, negra e periférica fazia desses espaços seus momentos de diversão e interação social.

A importância dessa afirmação negra vai muito além da estética. Ele diz respeito a afirmação, contestação das desigualdades sociais e promoção de espaços democráticos para a população, de forma, geral, pois seu caráter plural faz com que a confluência de pessoas e os diversos grupos sejam tratados igualmente.

Ultimamente em Resende o espaço dos bailes black/charme tem sido restrito em detrimento do rock, forró e pagode. Não que esses grupos devam perder seus espaços, mas deve-se ter mais inserção da cultura black/charme juntamente com esses ritmos por conta de sua representatividade e arcabouço histórico na luta pelo reconhecimento e valorização da cultura negra.

Dois nomes importantes na divulgação desse movimento são os Dj´s Claudinho e Birinha, que têm promovido bailes em diversos espaços da cidade. Por vezes, em shoppings outras em clubes, bairros e quadras.

Um espaço central e popular em que os bailes poderiam ocorrer com mais frequência é a feira da beira rio. Certamente não há espaço mais democrático do que uma feira livre. Nesse sentido, os diversos ritmos devem ser contemplados. Não é somente uma questão estética ou preferência musical. A cultura black/charme necessita ser destacada por seu valor histórico e cultural, por isso salientamos sua importância e seu valor.

Em conformidade com a valorização crescente da cultura negra no Brasil, devemos fomentar esse espaço cultural e de encontros estéticos, culturais, musicais e de forte cunho histórico.

Luis Carvalho – filósofo

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