É comum ouvir das pessoas mais antigas que “no meu tempo não tinha nada disso e a gente sobreviveu”. Sim, mas a que preço?
Ouvimos as pessoas considerando que algumas perturbações dos nossos dias não passam de invenções para dificultar as coisas ou para arrumar o que fazer para um tanto de pessoas. Desconsideram que a ciência e os estudos avançam a passos largos. Os tempos mudam e o mundo evolui.
Poderia citar vários exemplos, mas vou usar a Dislexia para pontuar essa prosa.
Dislexia nada mais é, em uma linguagem nada acadêmica, do que a dificuldade para desenvolver o aprendizado da leitura. Muitos sintomas indicam e devemos desconfiar desse diagnóstico desde cedo. Mas, em geral, passa despercebida e erroneamente vista como uma dificuldade de aprendizado. Por esse motivo, muitas pessoas inteligentes abandonam a escola e os estudos sem que a própria escola se dê conta de que ela própria não estava preparada e não soube acolher da forma como essas pessoas precisavam ser acolhidas.
A escola regular, ou seja, aquela que não é especializada, mas a que está à disposição para todos, só está preparada para ensinar quem sabe aprender de um jeito. E com isso costuma desconsiderar pessoas com muita capacidade e nenhuma ou muito pouca habilidade para ler na única cartilha que a escola usa para ensinar.
E o que pretende, de fato, o conteúdo escolar que ensina essa escola para poucos?
Para ilustrar, tenho uma pequena história para contar: certa vez estava tomando conta de uma turma que se debruçava em questões de Ensino Médio sobre Química. Então, uma estudante sinalizou que precisava falar com a professora, pois ela havia esquecido de inserir na prova a fórmula da água destilada, informação que seria fundamental para a resolução da questão. Nesse momento eu mesma informei que era H2O. A estudante discordou dizendo que essa era a formula da água comum. E eu afirmei que ela poderia usar, pois era a mesma coisa. E informei algumas fórmulas que a professora esqueceu de inserir nos problemas.
Foi então que uma outra estudante me olhou incrédula e deu-se o seguinte diálogo:
– Você é professora de Química?
– Não. Sou professora de Filosofia.
– E como é que você sabe Química?
– Sei porque fiz o Ensino Médio.
– E ainda se lembra?
– Por que pergunta isso? Era para eu ter esquecido?
Se a escola não pode acolher e ensinar a todos, se o conteúdo ministrado vai ser necessariamente esquecido ao longo dos anos, se as pessoas serão discriminadas em aptas para a escola e não aptas: qual o sentido de obrigar a todos a frequentar a escola?
Sejamos mais humanos, mais calorosos e mais acolhedores. Esse é sem dúvida o maior aprendizado e o maior ensinamento que podemos realizar nessa vida.
Esse texto é um acolhimento caloroso para meus queridos GMPO e GGG, amigos que se descobriram dislexos e enfrentam com coragem os muitos desafios e exclusões a que são submetidos.
Ângela Alhanati
contato@angelaalhanati.com.br
Livre pensadora exercendo seu direito à reflexão

