O Luto

O luto é o preço que se paga por amar. Não se vive o luto se não for por uma grande perda. São vários os tipos de luto e o Luto Parental é quando a natureza resolve ir na contramão e leva o filho antes dos pais, causando um enorme sofrimento. Uma dor insuportável, incompreensível, imoral. Inegavelmente, apontado como o mais avassalador de todos os lutos que um ser humano pode enfrentar ao longo de sua vida.

Estou acompanhando um grupo que se reúne quinzenalmente para apoiar mães que perderam seus filhos, por isso o enfoque desse texto a partir da perspectiva materna. A cada encontro um novo e rico aprendizado. Não importa se o filho é adulto, criança, adolescente, se estava doente, se foi um aborto, um natimorto: não existe uma perda maior do que outra; todas são intensas e devastadoras. O filho significa o sonho, a projeção, a extensão dos pais. É a fonte de imortalidade, pois oferece aos pais a possibilidade de continuidade no futuro, com esperanças, sonhos e expectativas que são concebidas no seu nascimento. Perder o filho significa perder o sentido da vida.

De tudo o que ouço, posso dizer que o que mais me chama atenção é a necessidade das mães de falarem sobre seus filhos, como se esse falar tivesse a capacidade de esvaziar um pouco a dor e trazer algum conforto. Elas são as guardiãs desses filhos e ao falar sobre, fazem com que não sejam esquecidos, que eles, de alguma forma, perpetuem: eles não serão esquecidos. As mães não permitirão. Elas não tinham um filho: elas os têm, pois eles existem em algum lugar e não mais ao alcance de seus beijos, abraços e afagos. E, para a esmagadora maioria, a esperança do reencontro lhes dá força para a continuidade.

Também me impressiona a dificuldade que as pessoas têm para ouvir essas mães. No começo, da eminência da perda até pouco tempo depois, as pessoas são solidárias e prestam alguma assistência. Depois, as pessoas voltam ao seu ritmo de vida, mas a mãe descompassada precisa continuar. Quando elas querem falar, ouvem que é melhor mudar de assunto, numa tentativa de distrair da dor; que se insistir em falar, o “morto não descansa em paz”, então deve-se evitar tocar no nome. Deve-se jogar tudo fora e tirar da vista tudo o que possa lembrar a pessoa que já se foi, como se isso pudesse evitar lembranças e desassossegos. Então, não tendo com quem conversar, são silenciadas em seu padecimento, que cruelmente as corroem, sem que possa ser diluído, abrandado e aplacado.

Como qualquer outro tipo de luto, o luto parental não se dá de forma linear. Existem as ondas de luto, que é a intensificação da dor do enlutado provocada por gatilhos como aniversários, datas festivas em família, etc. Com isso, pode-se afirmar que jamais vai terminar. O luto parental é uma dor que só sessa com a morte mãe.

Portanto, se há alguma coisa a fazer para amenizar a dor é deixar falar. Por caridade, por solidariedade, por compaixão, deixem as mães falarem dos seus filhos o tanto que quiserem. Se para elas isso é a manutenção essencial do vínculo e o combustível necessário para continuar, para quem ouve, uma forma de purificação pela amorosidade da doação e sensibilidade.

Ângela Alhanati
contato@angelaalhanati.com.br
Livre pensadora exercendo seu direito à reflexão

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