Por que algumas práticas de cuidado conquistam espaço nas redes sociais, mas ainda encontram pouco espaço na mídia tradicional?
A pergunta está na origem de uma pesquisa que investiga a visibilidade das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), buscando compreender como esses saberes e práticas, já reconhecidos e incorporados ao SUS, circulam entre diferentes espaços de comunicação. Mais do que medir a presença ou a ausência das PICS na mídia, o estudo pretende investigar os processos que produzem, legitimam ou limitam sua visibilidade na sociedade contemporânea. O artigo científico abaixo é parte de uma pesquisa que será desenvolvida nos próximos dias e que o BEIRA-RIO acompanhará. Leia e deixe sua opinião.
INTRODUÇÃO
A institucionalização das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) no Sistema Único de Saúde (SUS) representou um marco importante na ampliação das possibilidades terapêuticas oferecidas à população brasileira. Desde a publicação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), em 2006, posteriormente ampliada para contemplar vinte e nove modalidades terapêuticas, o Ministério da Saúde reconhece essas práticas como parte integrante da atenção à saúde, especialmente na Atenção Primária.
Apesar desse reconhecimento normativo, observa-se um fenômeno paradoxal. Enquanto as PICS permanecem relativamente invisíveis na comunicação institucional do SUS e ocupam espaço reduzido na mídia jornalística tradicional, elas assumem posição de destaque nas redes sociais digitais, onde são constantemente divulgadas por influenciadores, terapeutas, empresas e usuários. Essa hipervisibilidade, entretanto, nem sempre ocorre em consonância com as evidências científicas disponíveis ou com os princípios da política pública brasileira, favorecendo processos de simplificação, mercantilização e circulação de informações imprecisas.
Esse cenário evidencia um importante problema de comunicação: a ausência de uma presença institucional robusta abre espaço para que outros agentes passem a ocupar o lugar de produtores legítimos de conhecimento sobre as PICS. Consequentemente, a informação científica divide espaço com narrativas baseadas em experiências individuais, promessas terapêuticas generalizantes e conteúdos voltados prioritariamente ao engajamento nas plataformas digitais.
A compreensão desse fenômeno pode ser enriquecida a partir da articulação entre Douglas Kellner e Michel Foucault. Para Kellner, a cultura da mídia constitui um dos principais espaços contemporâneos de produção de sentidos, identidades e disputas simbólicas. Os meios de comunicação não apenas difundem informações, mas estabelecem quais temas serão visíveis, relevantes e dignos de reconhecimento social. A invisibilidade também comunica, pois contribui para a marginalização de determinados saberes.
Sob outra perspectiva, Foucault demonstra que a produção dos discursos considerados verdadeiros está profundamente relacionada às relações de poder. O saber médico moderno consolidou-se historicamente como discurso privilegiado sobre o corpo, a doença e os processos terapêuticos. Assim, práticas que dialogam com racionalidades distintas frequentemente ocupam posições periféricas nos dispositivos institucionais de legitimação do conhecimento, ainda que oficialmente reconhecidas pelo Estado.
A convergência entre essas abordagens permite compreender que a baixa visibilidade das PICS não decorre apenas de escolhas editoriais ou comunicacionais, mas de relações históricas de poder que influenciam quais conhecimentos recebem legitimidade institucional e quais permanecem marginalizados. Ao mesmo tempo, as redes sociais reconfiguram esse cenário ao democratizar parcialmente a produção de conteúdo, embora também favoreçam a circulação acelerada de desinformação.
A transformação do ecossistema comunicacional descrita por Caio Túlio Costa relativiza o papel historicamente desempenhado pela mídia tradicional como principal mediadora da informação pública. Se antes a produção de notícias permanecia concentrada em organizações jornalísticas, a nova mídia amplia a possibilidade de qualquer indivíduo produzir, compartilhar e fazer circular conteúdos, alterando os mecanismos tradicionais de legitimação da informação. Esse cenário ajuda a compreender por que as PICS podem permanecer relativamente invisíveis na mídia tradicional e, simultaneamente, alcançar elevada circulação nas redes sociais, onde a lógica de produção e disseminação da informação é menos dependente da mediação jornalística.
Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo discutir, em perspectiva teórica, as relações entre invisibilidade institucional, hipervisibilidade digital e desinformação sobre as PICS. Como desdobramento da reflexão apresentada, propõe-se a realização de uma pesquisa quantitativa, posteriormente submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa, destinada a investigar como os participantes da pesquisa percebem a presença das PICS nos diferentes ambientes comunicacionais e quais fontes consideram mais confiáveis para obter informações sobre essas práticas.
1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.1 COMUNICAÇÃO, PODER E PRODUÇÃO DE SENTIDOS: UMA LEITURA FOUCAULTIANA DA INFORMAÇÃO
A comunicação em saúde ultrapassa a função de transmitir informações técnicas ou orientar comportamentos individuais. Ela constitui um campo de disputa simbólica no qual diferentes discursos produzem sentidos, estabelecem verdades e influenciam práticas sociais. Segundo Wolf[1] (2001), a notícia não representa um reflexo espontâneo da realidade, mas o resultado de um processo de seleção orientado por critérios de noticiabilidade, rotinas produtivas e valores profissionais do jornalismo. Assim, a visibilidade pública de determinados temas depende menos de sua existência objetiva do que de sua capacidade de atender aos critérios que organizam a produção jornalística.
Sob essa perspectiva, compreender a visibilidade ou invisibilidade das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) exige reconhecer que a circulação da informação não ocorre de maneira neutra, mas é atravessada por relações de poder que legitimam determinados saberes enquanto silenciam outros.
Michel Foucault[2] compreende o discurso como prática social produtora de realidade. Em sua perspectiva, os discursos não apenas descrevem o mundo, mas organizam modos de pensar, agir e reconhecer aquilo que passa a ser considerado verdadeiro. O poder, portanto, não se restringe à coerção institucional, mas atua de forma difusa na produção e circulação dos conhecimentos socialmente legitimados.
No campo da saúde, essa dinâmica torna-se especialmente evidente. A medicina científica consolidou-se historicamente como discurso hegemônico, ocupando posição privilegiada na produção das verdades sobre o corpo, a doença e o cuidado. Esse processo não implica negar sua importância para os avanços sanitários, mas evidencia que outras formas de conhecimento frequentemente permanecem em posições marginais, independentemente das evidências científicas disponíveis.
Foucault destaca que toda sociedade estabelece mecanismos que regulam quais discursos podem circular, quem possui legitimidade para enunciá-los e quais instituições detêm autoridade para validá-los. No contexto da saúde pública, tais mecanismos deveriam influenciar diretamente a agenda midiática, as prioridades institucionais e a própria percepção social acerca das diferentes possibilidades terapêuticas.
As PICS inserem-se nesse cenário como um conjunto de práticas que desafia modelos historicamente centrados na medicalização e na fragmentação do cuidado. Embora reconhecidas oficialmente pelo Sistema Único de Saúde desde a criação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), sua presença no debate público permanece significativamente inferior à observada para outras intervenções em saúde. Essa assimetria evidencia que o reconhecimento institucional, por si só, não garante legitimidade simbólica perante a sociedade.
Sob a ótica foucaultiana, a reduzida circulação de informações sobre as PICS pode ser compreendida como resultado de dispositivos de poder que selecionam quais conhecimentos adquirem maior visibilidade social. Os meios de comunicação, enquanto espaços de produção e difusão de discursos participam desse processo ao definir prioridades temáticas, selecionar fontes consideradas autorizadas e estabelecer enquadramentos narrativos capazes de influenciar a percepção coletiva. Essa dinâmica é sintetizada por Foucault ao afirmar que toda sociedade estabelece mecanismos pelos quais determinados discursos passam a funcionar como verdadeiros, enquanto outros permanecem marginalizados, (Foucault, p.12).
Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade, isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos; a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.
Nesse sentido, a comunicação deixa de ser compreendida apenas como veículo de divulgação científica e passa a constituir elemento estratégico na construção das representações sociais sobre saúde. A forma como determinados assuntos são apresentados — ou simplesmente omitidos — interfere diretamente na formação da opinião pública, nas escolhas individuais de cuidado e até mesmo na implementação das políticas públicas.
Ao analisar a relação entre discurso, poder e verdade, Foucault oferece importante aporte teórico para compreender que a invisibilidade das PICS na comunicação não decorre exclusivamente da ausência de evidências científicas ou de interesse jornalístico. Trata-se de um fenômeno produzido por relações históricas de legitimação dos saberes, nas quais determinados modelos de cuidado ocupam posição central enquanto outros permanecem periféricos, mesmo quando reconhecidos pelas políticas públicas nacionais e por organismos internacionais.
Essa compreensão fundamenta a necessidade de investigar como os processos comunicacionais influenciam a percepção social sobre as PICS e de que maneira podem contribuir para ampliar o acesso da população a informações qualificadas, favorecendo o exercício do direito à informação e o fortalecimento da integralidade do cuidado preconizada pelo Sistema Único de Saúde.
A literatura sobre comunicação em saúde também evidencia que a circulação de discursos não ocorre em um espaço social neutro. Diferentes atores institucionais, econômicos e científicos disputam legitimidade na definição dos modelos de cuidado considerados socialmente relevantes. Nesse contexto, a histórica centralidade do modelo biomédico e hospitalocêntrico, articulada a interesses profissionais, industriais e mercadológicos, constitui um dos elementos que podem direcionar a visibilidade atribuída às diferentes práticas em saúde. Todavia, sem abrir mão deste horizonte teórico, o presente estudo não pretende identificar relações causais entre esses fatores e a cobertura midiática das PICS, limitando-se a investigar como essa visibilidade é percebida pelos cidadãos.
1.2 CULTURA DA MÍDIA E A RECONFIGURAÇÃO DO ECOSSISTEMA COMUNICACIONAL DAS PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES EM SAÚDE
A compreensão da comunicação em saúde como espaço de disputa simbólica torna-se mais consistente quando articulada às contribuições de Douglas Kellner[3] acerca da cultura da mídia. Para o autor, os meios de comunicação não apenas difundem informações, mas produzem significados, constroem identidades, definem prioridades sociais e influenciam a forma como a sociedade interpreta a realidade. Como sintetiza Kellner, a cultura da mídia não apenas transmite conteúdos, mas participa da conformação das formas pelas quais os indivíduos interpretam a realidade e constroem suas referências sociais, (Kellner, p.304). “(…) argumentaremos que a televisão e outras formas da cultura da mídia desempenham papel fundamental na reestruturação, na identidade contemporânea e na conformação de pensamentos e comportamentos”.
Nessa perspectiva, a comunicação constitui um processo ativo de construção social dos sentidos. Os acontecimentos não adquirem relevância pública exclusivamente por sua importância objetiva, mas também pelos critérios de seleção, enquadramento e circulação empregados pelos diferentes meios de comunicação. Assim, compreender a visibilidade das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde exige analisar não apenas sua institucionalização como política pública, mas também os ambientes comunicacionais nos quais essa política circula e é socialmente apropriada.
Historicamente, os meios tradicionais de comunicação exerceram papel central na definição da agenda pública em saúde. Jornais, revistas, rádio e televisão atuaram como principais mediadores entre a produção científica, as políticas públicas e a sociedade, selecionando temas, fontes e acontecimentos considerados de interesse coletivo. Esse processo contribuiu para consolidar determinados referenciais de cuidado, conferindo maior visibilidade às abordagens biomédicas, aos avanços tecnológicos e à assistência hospitalar.
Entretanto, o desenvolvimento das plataformas digitais modificou significativamente esse cenário. A circulação da informação tornou-se descentralizada, permitindo que instituições públicas, pesquisadores, profissionais de saúde, influenciadores digitais, terapeutas e os próprios usuários passassem a produzir e compartilhar conteúdos em larga escala. As redes sociais ampliaram as possibilidades de acesso à informação, mas também intensificaram desafios relacionados à qualidade das informações, à desinformação e à dificuldade de identificação de fontes confiáveis.
Conforme Costa (2009, p.250), o ambiente digital relativizou o papel histórico da imprensa como principal mediadora da informação pública. A possibilidade de qualquer indivíduo produzir e difundir conteúdos amplia a pluralidade informacional, mas também reduz os mecanismos tradicionais de verificação e responsabilização editorial. Isso ajuda a compreender por que as PICS apresentam baixa presença na mídia tradicional e, simultaneamente, intensa circulação nas redes sociais:
Assimétricas, as informações dançam conforme as necessidades do príncipe eletrônico, das difusas e interpoladas necessidades da mídia – além de terem sido vulgarizadas e facilitadas para a compreensão média do público ou, para conforto dos comunicadores, para compreensão média do ‘grande público’.
Essa transformação não eliminou a influência da mídia tradicional, mas produziu um ecossistema comunicacional híbrido, no qual diferentes atores disputam atenção, credibilidade e legitimidade. Enquanto os veículos jornalísticos continuam exercendo importante função de mediação e atribuição de credibilidade, as redes sociais favorecem maior velocidade de circulação das informações, ampliação das experiências compartilhadas e diversificação das narrativas sobre saúde.
No caso das PICS, essa reconfiguração apresenta características particulares. Observa-se que a presença dessas práticas na mídia tradicional permanece relativamente limitada quando comparada à cobertura dedicada a procedimentos hospitalares, medicamentos, tecnologias diagnósticas e descobertas biomédicas. Em contrapartida, as redes sociais apresentam crescente volume de conteúdos relacionados às PICS, produzidos por diferentes atores sociais, com distintos níveis de qualidade, fundamentação científica e intencionalidade comunicacional.
Esse cenário evidencia um paradoxo comunicacional. A maior circulação de conteúdos nas plataformas digitais não implica, necessariamente, maior acesso da população à informação qualificada. Ao contrário, a coexistência de conteúdos científicos, relatos pessoais, estratégias de marketing, publicidade de serviços e informações sem respaldo técnico amplia a complexidade do processo de construção do conhecimento em saúde.
As reflexões de Kellner tornam-se particularmente relevantes nesse contexto ao demonstrar que a cultura da mídia não se limita à transmissão de informações, mas participa da construção das representações sociais e flerta com a busca de identidades. “Assim, na modernidade, o problema da identidade consistia no modo como nos constituímos, nos percebemos, nos interpretamos e nos apresentamos a nós mesmos e aos outros”. A visibilidade de determinados temas, a escolha das fontes consideradas legítimas e os enquadramentos predominantes influenciam diretamente a percepção pública acerca da credibilidade de diferentes formas de pertencimento e cuidado.
Assim, investigar a comunicação das PICS exige compreender a atuação complementar — e, por vezes, concorrente — da mídia tradicional e das redes sociais. Mais do que identificar a quantidade de informações disponíveis, torna-se necessário compreender como esses diferentes ambientes comunicacionais influenciam o conhecimento da população sobre as PICS, a percepção de sua legitimidade e o reconhecimento dessa política pública como direito assegurado pelo Sistema Único de Saúde.
Essa compreensão fundamenta a presente proposta de pesquisa, que buscará analisar de que maneira diferentes fontes de informação contribuem para a construção da legitimidade social das PICS, considerando que a efetividade comunicacional das políticas públicas depende, cada vez mais, da interação entre os diversos ambientes de circulação da informação em saúde.
1.3 O PARADOXO DAS PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES EM SAÚDE: RECONHECIMENTO INSTITUCIONAL E INVISIBILIDADE COMUNICACIONAL
A institucionalização das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) representa um dos movimentos mais significativos de ampliação das possibilidades de cuidado no âmbito das políticas públicas brasileiras. Entretanto, esse reconhecimento formal contrasta com sua limitada presença nos processos comunicacionais, configurando um paradoxo que justifica a presente investigação.
No cenário internacional, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece, há décadas, a relevância das medicinas tradicionais, complementares e integrativas como componentes importantes para o fortalecimento dos sistemas de saúde. A publicação da WHO Traditional Medicine Strategy 2014–2023 consolidou diretrizes voltadas à incorporação dessas práticas pelos países membros, enfatizando quatro eixos principais: desenvolvimento de políticas públicas, garantia da qualidade e segurança, ampliação do acesso e uso racional das práticas tradicionais e complementares.
Mais recentemente, a OMS reafirmou esse compromisso ao publicar a WHO Traditional Medicine Global Strategy 2025–2034, documento que amplia a compreensão das medicinas tradicionais como recursos capazes de contribuir para a cobertura universal de saúde, para o cuidado centrado na pessoa e para sistemas de saúde mais sustentáveis, integrados e culturalmente sensíveis. A estratégia destaca que a comunicação, a produção de conhecimento e o acesso à informação qualificada constituem elementos essenciais para a integração dessas práticas aos serviços de saúde.
No Brasil, essas recomendações encontram respaldo na PNPIC, instituída em 2006 pelo Ministério da Saúde. A política reconhece oficialmente diversas práticas integrativas como parte do SUS, fundamentando-se nos princípios da universalidade, integralidade, equidade e participação social. Ao longo dos anos, novas portarias ampliaram significativamente o conjunto de práticas ofertadas na rede pública, consolidando um processo contínuo de institucionalização.
Além da regulamentação normativa, observa-se crescimento expressivo da produção científica nacional envolvendo as PICS, com estudos publicados em diferentes áreas do conhecimento, avaliações de efetividade clínica, pesquisas em atenção primária, saúde mental, dor crônica, promoção da saúde e qualidade de vida. Paralelamente, ampliou-se a oferta dessas práticas em estados e municípios brasileiros, bem como sua inserção em programas de formação profissional e educação permanente em saúde.
Sob uma perspectiva estritamente institucional, portanto, não se verifica ausência de reconhecimento das PICS. Ao contrário, há políticas públicas consolidadas, respaldo normativo, produção científica crescente e recomendações explícitas de organismos internacionais. Ainda assim, essa legitimidade não parece refletir-se na esfera comunicacional.
A discrepância entre reconhecimento institucional e visibilidade pública sugere que a existência de políticas públicas, por si só, não garante sua apropriação social. O acesso da população aos direitos em saúde depende, em grande medida, da circulação de informações capazes de tornar tais políticas conhecidas, compreensíveis e socialmente legitimadas. Nesse contexto, a comunicação deixa de desempenhar papel meramente informativo para assumir função estruturante na efetivação das políticas públicas.
Essa constatação aproxima as contribuições de Foucault e Kellner. Se, por um lado, os regimes de verdade condicionam quais conhecimentos alcançam validação social, por outro, a cultura da mídia estabelece quais desses conhecimentos ocuparão espaço na agenda pública. O resultado é que políticas oficialmente reconhecidas podem permanecer praticamente invisíveis para grande parte da população quando não encontram espaço nos fluxos comunicacionais predominantes.
A pandemia de COVID-19 tornou ainda mais evidente a centralidade da comunicação na saúde pública. A própria Organização Mundial da Saúde passou a tratar a infodemia[4] como desafio estratégico, reconhecendo que a abundância de informações, muitas vezes contraditórias ou desprovidas de evidências, interfere diretamente na capacidade das pessoas de tomar decisões relacionadas ao cuidado em saúde. Nesse cenário, a produção de informação qualificada tornou-se componente indispensável das políticas públicas.
Entretanto, apesar dos avanços nas discussões sobre desinformação em saúde, observa-se que as PICS permanecem relativamente ausentes tanto dos grandes veículos de comunicação quanto das estratégias sistemáticas de comunicação pública em saúde. Essa lacuna pode contribuir para o desconhecimento da população acerca dos serviços disponíveis no SUS, reduzindo o acesso às práticas integrativas e limitando o exercício do direito à informação.
É justamente nesse ponto que se insere a presente proposta de pesquisa. Parte-se da hipótese de que existe um descompasso entre a consolidação institucional das PICS e sua representação nos processos comunicacionais, fenômeno que pode influenciar a percepção social sobre sua legitimidade, sua utilização pelos usuários do SUS e sua incorporação ao cotidiano das políticas públicas de saúde. Investigar esse descompasso significa compreender a comunicação não apenas como instrumento de divulgação, mas como elemento constitutivo da própria efetividade das políticas públicas.
1.4 A COMUNICAÇÃO COMO DIMENSÃO DA EFETIVAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS: O DESAFIO DA HEGEMONIA DO PARADIGMA BIOMÉDICO
A análise da efetividade das políticas públicas em saúde costuma privilegiar aspectos relacionados à formulação normativa, à organização dos serviços, ao financiamento e à avaliação de resultados. Embora esses elementos sejam indispensáveis, eles não esgotam os fatores que influenciam a consolidação de uma política pública. Entre a institucionalização e sua apropriação pela sociedade existe um campo de mediações simbólicas no qual a comunicação desempenha papel estruturante.
Parte-se, neste estudo, da compreensão de que a comunicação não atua apenas como instrumento de divulgação das ações governamentais, mas como processo capaz de produzir reconhecimento, atribuir legitimidade e influenciar a forma como a sociedade percebe diferentes modelos de cuidado. Sob essa perspectiva, a efetividade de uma política pública depende também de sua existência no espaço comunicacional, onde discursos, narrativas e representações sociais disputam visibilidade e reconhecimento.
Essa compreensão torna-se especialmente relevante quando analisada à luz da organização histórica dos sistemas de saúde. Ao longo do século XX, consolidou-se um paradigma biomédico centrado na doença, no diagnóstico, na especialização profissional, na incorporação tecnológica e na assistência hospitalar. Esse modelo produziu avanços incontestáveis para a ciência e para a assistência à saúde, contribuindo significativamente para o aumento da expectativa de vida, o controle de doenças e o desenvolvimento de tecnologias diagnósticas e terapêuticas.
Entretanto, a própria evolução dos perfis epidemiológicos, marcada pelo crescimento das condições crônicas, do envelhecimento populacional e da necessidade de abordagens integrais do cuidado, evidenciou os limites de uma atenção predominantemente centrada na doença e no ambiente hospitalar. Nesse contexto, organismos internacionais, como a OMS, e políticas públicas brasileiras passaram a incentivar estratégias que valorizam a promoção da saúde, a prevenção de agravos, a participação dos usuários e a integralidade do cuidado.
As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde inserem-se nesse movimento de ampliação das possibilidades terapêuticas. Sua incorporação ao SUS não representa a substituição do modelo biomédico, mas a construção de uma abordagem complementar, orientada pela integralidade e pelo reconhecimento das diferentes necessidades dos usuários. A própria PNPIC estabelece que essas práticas devem integrar a rede de atenção à saúde de forma articulada às demais ações e serviços do SUS.
Apesar desse reconhecimento institucional, observa-se que o paradigma biomédico permanece predominante nos processos comunicacionais relacionados à saúde. A cobertura jornalística tende a conferir maior visibilidade a procedimentos hospitalares de alta complexidade, novas tecnologias, medicamentos, intervenções cirúrgicas e descobertas biomédicas, enquanto ações voltadas à promoção da saúde, ao autocuidado, às práticas comunitárias e às PICS ocupam espaço proporcionalmente reduzido na agenda pública.
Essa predominância não deve ser interpretada como consequência exclusiva das escolhas editoriais dos meios de comunicação. Ela também se relaciona à histórica centralidade do paradigma biomédico na organização dos sistemas de saúde, cujos referenciais científicos, institucionais e econômicos contribuíram para consolidar determinados modelos de cuidado como socialmente mais visíveis do que outros.
Conforme argumenta Foucault, os discursos socialmente legitimados são resultado de relações históricas de poder que definem quais conhecimentos adquirem autoridade para circular como verdade. “O poder não é um objeto natural, uma coisa: é uma prática social e, como tal, constituída historicamente”[5]. Kellner complementa essa perspectiva ao demonstrar que a cultura da mídia participa ativamente da produção desses significados, reforçando determinados referenciais culturais e conferindo maior visibilidade aos discursos já reconhecidos socialmente.
Sob essa ótica, a comunicação tende a reproduzir, ainda que muitas vezes de forma não intencional, a centralidade do paradigma biomédico. Ao privilegiar determinadas fontes, acontecimentos, instituições e formas de cuidado, contribui para consolidar uma representação social da saúde fortemente associada ao ambiente hospitalar, à medicalização e às tecnologias de alta complexidade. Em contrapartida, políticas públicas voltadas à promoção da saúde e ao cuidado integral podem permanecer menos conhecidas pela população, mesmo quando institucionalmente consolidadas.
Esse fenômeno permite compreender que a comunicação não apenas divulga políticas públicas, mas participa de sua própria legitimação social. Quanto maior a presença de determinada política nos processos comunicacionais, maiores tendem a ser seu reconhecimento público, sua incorporação ao imaginário coletivo e sua apropriação pelos cidadãos. O movimento inverso também merece atenção: políticas pouco visíveis tendem a enfrentar maiores dificuldades para serem reconhecidas como direitos efetivamente disponíveis.
Segundo Wolf (2005), os meios de comunicação não apenas informam, mas selecionam acontecimentos segundo critérios de noticiabilidade, estabelecendo quais temas passam a integrar a agenda pública. Os processos de gatekeeping e newsmaking evidenciam que a visibilidade jornalística resulta de escolhas profissionais, rotinas produtivas e valores-notícia, e não exclusivamente da importância social atribuída aos acontecimentos.
Nesse sentido, a reduzida presença das PICS na comunicação pública pode contribuir para um ciclo de invisibilidade. O menor conhecimento da população acerca dessas práticas limita sua procura pelos serviços, reduz sua presença no debate público e dificulta o reconhecimento social dessas práticas, mesmo diante de sua consolidação normativa e do respaldo conferido por organismos nacionais e internacionais.
Propõe-se, assim, compreender a comunicação como dimensão constitutiva da efetivação das políticas públicas. Essa perspectiva amplia sua função tradicional de divulgação institucional e a reconhece como elemento estratégico para a produção de sentidos, para a democratização do acesso à informação e para o fortalecimento da cidadania em saúde. A efetividade de uma política pública não depende apenas de sua existência formal, mas também de sua capacidade de tornar-se socialmente conhecida, compreendida e reconhecida como direito.
É nesse contexto que as PICS assumem relevância como objeto empírico desta investigação. Sua trajetória reúne características singulares: legitimidade normativa, reconhecimento internacional, inserção progressiva na rede pública e crescente produção científica, coexistindo, entretanto, com limitada visibilidade comunicacional. Investigar esse aparente descompasso permitirá compreender de que maneira os processos comunicacionais influenciam a construção da legitimidade social das políticas públicas de saúde, contribuindo para ampliar o debate sobre o papel da comunicação na consolidação do direito à saúde.
2. PROPOSTA METODOLÓGICA
Este artigo aponta a proposta metodológica de uma pesquisa quantitativa, de natureza aplicada, com objetivos descritivos e delineamento transversal, a ser desenvolvida após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, observando os princípios estabelecidos pela Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes serão convidados mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assegurando-se participação voluntária, anonimato, confidencialidade e liberdade para desistência em qualquer etapa da pesquisa.
O estudo tem como finalidade analisar como cidadãs e cidadãos percebem a presença das PICS na mídia tradicional e nas redes sociais e como essa percepção constrói sua legitimidade. A pesquisa foi motivada pelas reflexões suscitadas durante uma oficina sobre Comunicação, Mídia e Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, realizada em conferência municipal de saúde na cidade de Resende, RJ. A experiência permitiu identificar indícios da necessidade de aprofundar, de forma sistemática, a investigação acerca da influência dos diferentes ambientes comunicacionais na construção do conhecimento público sobre as PICS. Os dados obtidos nessa atividade tiveram caráter exclusivamente exploratório e contribuíram apenas para a formulação do problema de pesquisa, não constituindo objeto de análise deste artigo.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As PICS constituem, no contexto brasileiro, uma política pública consolidada do SUS, respaldada por recomendações da OMS e por um conjunto de normativas que reconhecem sua contribuição para a promoção da saúde, a integralidade do cuidado e a ampliação das possibilidades terapêuticas. Entretanto, o reconhecimento institucional dessas práticas não parece ser acompanhado por equivalente visibilidade nos processos comunicacionais, evidenciando um descompasso entre sua consolidação normativa e sua apropriação social.
A partir das contribuições dos autores que fundamentam esta argumentação, este artigo buscou compreender a comunicação para além de sua função instrumental de divulgação, concebendo-a como espaço de produção de sentidos, circulação de discursos e construção de legitimidade social. Nessa perspectiva, a efetividade das políticas públicas não depende exclusivamente de sua formulação jurídica ou de sua implementação administrativa, mas também da forma como são comunicadas, reconhecidas e incorporadas ao cotidiano dos cidadãos.
A discussão proposta permitiu evidenciar que a predominância histórica do paradigma biomédico nos processos comunicacionais pode influenciar a seleção dos temas que alcançam maior visibilidade pública, contribuindo para que políticas voltadas à promoção da saúde e ao cuidado integral, como a PNPIC, permaneçam relativamente periféricas na agenda comunicacional. Não se trata de estabelecer oposição entre diferentes modelos de atenção à saúde, mas de reconhecer que a diversidade de abordagens preconizada pelas políticas públicas e pelos organismos internacionais somente poderá ser plenamente efetivada quando acompanhada por processos comunicacionais capazes de ampliar o acesso da população a informações qualificadas.
Também se discutiu que a transformação do ecossistema comunicacional, marcada pela coexistência entre mídia tradicional e plataformas digitais, introduz novos desafios para a comunicação em saúde. Se, por um lado, as redes sociais ampliaram as possibilidades de circulação de conteúdos sobre as PICS, por outro intensificaram a necessidade de compreender como diferentes ambientes comunicacionais influenciam a credibilidade das informações, a construção do conhecimento público e o reconhecimento dessas práticas como parte das políticas públicas do SUS.
Nesse contexto, propôs-se compreender as PICS como objeto empírico de uma investigação situada no campo da Comunicação. O interesse central da pesquisa não reside apenas na análise da divulgação dessas práticas, mas na compreensão de como os processos comunicacionais participam da construção da legitimidade social das políticas públicas de saúde, influenciando o conhecimento da população, a percepção de seus direitos e as possibilidades de acesso aos serviços ofertados pelo Estado.
A proposta metodológica apresentada neste artigo busca responder a essa problemática por meio de uma pesquisa quantitativa que investigará a relação entre hábitos de consumo de informação, credibilidade das diferentes fontes comunicacionais, conhecimento das PICS e reconhecimento dessa política pública, permitindo analisar como cidadãs e cidadãos percebem a presença das PICS na mídia tradicional e nas redes sociais. Espera-se que os resultados permitam identificar elementos capazes de subsidiar estratégias de comunicação mais efetivas, contribuindo para fortalecer o acesso à informação e ampliar a visibilidade de políticas públicas já institucionalmente consolidadas.
Por fim, entende-se que as reflexões desenvolvidas neste artigo ultrapassam o caso específico das PICS. Ao discutir a comunicação como dimensão relevante para a efetivação do que as mídias tradicionais visibilizam e consequentemente legitimam e como as redes sociais ampliam a circulação de temas sem a mesma mediação editorial característica do jornalismo profissional, abre-se espaço para investigações futuras sobre outros assuntos cuja concretização também depende da circulação de informações qualificadas, da produção de sentidos e do reconhecimento social. Espera-se que esta pesquisa contribua não apenas para o debate sobre a visibilização ou ausência dela, mas contribua para ampliar a compreensão acerca dos processos pelos quais a mídia tradicional e as redes sociais atribuem diferentes níveis de visibilidade e legitimidade às PICS, evidenciando que a circulação da informação participa da construção social das políticas públicas.
4. REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS: atitude de ampliação de acesso. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015.
COSTA, Caio Júlio. Ética, jornalismo e nova mídia: uma moral provisória. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
KELLNER, Douglas. A cultura da mídia. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. Bauru, SP: EDUSC, 2001.
WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. 6. ed. Lisboa: Editorial Presença, 2001.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Traditional Medicine Strategy 2014–2023. Geneva: WHO, 2013.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Traditional Medicine Global Strategy 2025–2034. Geneva: WHO, 2025.
[1] Por outras palavras, não se pode descrever a seleção apenas como uma escolha subjetiva do jornalista, mesmo que seja, profissionalmente motivada; é necessário vê-la como um processo complexo, que se desenrola ao longo de todo o ciclo de trabalho, realizado as instâncias diferentes – desde as fontes até o simples redator – e com motivações que não todas imediatamente imputáveis à necessidade direta de escolher as notícias a transmitir. (WOLF, 2001, p.241)
[2] FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro. Graal, 1979.
[3] Kellner, Douglas. A Cultura da Mídia. Bauru, SP. EDUSC, 2001. A obra traz análise teórica e discussões concretas sobre algumas das formas mais populares e influentes da cultura contemporânea veiculada pela mídia.
[4] O termo infodemia foi popularizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para designar o excesso de informações, muitas vezes imprecisas ou falsas, que se espalha rapidamente sobre um determinado assunto.
[5] MACHADO, Roberto. “Por uma genealogia do poder”, Introdução de Microfísica do Poder.

