Aconteceu com Josué

Josué não aguentava mais. O laringologista lhe dissera que se não exigisse nota fiscal faria um desconto. Josué com o salário de fome que recebia… Me digam, como Josué poderia recusar um desconto? Recusando ou aceitando, Josué não tinha certeza.

Também no supermercado Josué precisava insistir com a moça do caixa para que desse nota fiscal do quilo de feijão que levaria para cozinhar em casa. Tirar a nota demorava e a fila reclamava. O que Josué faria com aquela nota?

Depois, por uma questão de princípios ele ouviu do chefe na fábrica “Se desviamos uma caixa de molas, não há problema. É só uma caixa. Mas se desaparecem cinco, seis caixas de molas… Aí não dá. Aí é roubo.” Na fábrica sempre faltava uma caixa de molas no final do turno. Entretanto o fiscal considerava isso dentro da margem de erro. E estava tudo bem. Um dia chegou a vez de Josué levar uma caixa de molas. Recusando ou aceitando, Josué não tinha certeza.

Josué tinha dúvida sobre o que significavam princípios. E ética? Agora era a palavra que mais ouvia na TV. Josué foi ao dicionário. Ética vem de Ethos, termo grego… Josué se sentiu um ignorante. Parou de aceitar consulta com desconto; começou a avisar, desde quando entrava na fila, que ia querer nota fiscal sim e disse que não levaria nenhuma caixa de molas para casa. “É que não tenho nada para fazer com essas molas.” Disse a um colega.

Josué achou até que não tinha princípios. Achou que o errado era ele. Josué não tinha certeza. E como era difícil, no mundo de Josué, não ser cheio de verdades, de princípios e de éticas.

Rafael Alvarenga
Escritor e professor de Filosofia
ninhodeletras.blogspot.com.br

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