
{"id":98979,"date":"2026-08-11T15:57:02","date_gmt":"2026-08-11T18:57:02","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalbeirario.com.br\/portal\/?p=98979"},"modified":"2026-08-11T16:04:03","modified_gmt":"2026-08-11T19:04:03","slug":"praticas-integrativas-e-complementares-voce-sabe-o-que-sao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalbeirario.com.br\/portal\/?p=98979","title":{"rendered":"Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares: voc\u00ea sabe o que s\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por que algumas pr\u00e1ticas de cuidado conquistam espa\u00e7o nas redes sociais, mas ainda encontram pouco espa\u00e7o na m\u00eddia tradicional?<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta est\u00e1 na origem de uma pesquisa que investiga a visibilidade das Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares em Sa\u00fade (PICS), buscando compreender como esses saberes e pr\u00e1ticas, j\u00e1 reconhecidos e incorporados ao SUS, circulam entre diferentes espa\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o. Mais do que medir a presen\u00e7a ou a aus\u00eancia das PICS na m\u00eddia, o estudo pretende investigar os processos que produzem, legitimam ou limitam sua visibilidade na sociedade contempor\u00e2nea. O artigo cient\u00edfico abaixo \u00e9 parte de uma pesquisa que ser\u00e1 desenvolvida nos pr\u00f3ximos dias e que o <strong>BEIRA-RIO<\/strong> acompanhar\u00e1. Leia e deixe sua opini\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A institucionaliza\u00e7\u00e3o das Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares em Sa\u00fade (PICS) no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) representou um marco importante na amplia\u00e7\u00e3o das possibilidades terap\u00eauticas oferecidas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira. Desde a publica\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares (PNPIC), em 2006, posteriormente ampliada para contemplar vinte e nove modalidades terap\u00eauticas, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade reconhece essas pr\u00e1ticas como parte integrante da aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, especialmente na Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar desse reconhecimento normativo, observa-se um fen\u00f4meno paradoxal. Enquanto as PICS permanecem relativamente invis\u00edveis na comunica\u00e7\u00e3o institucional do SUS e ocupam espa\u00e7o reduzido na m\u00eddia jornal\u00edstica tradicional, elas assumem posi\u00e7\u00e3o de destaque nas redes sociais digitais, onde s\u00e3o constantemente divulgadas por influenciadores, terapeutas, empresas e usu\u00e1rios. Essa hipervisibilidade, entretanto, nem sempre ocorre em conson\u00e2ncia com as evid\u00eancias cient\u00edficas dispon\u00edveis ou com os princ\u00edpios da pol\u00edtica p\u00fablica brasileira, favorecendo processos de simplifica\u00e7\u00e3o, mercantiliza\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es imprecisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse cen\u00e1rio evidencia um importante problema de comunica\u00e7\u00e3o: a aus\u00eancia de uma presen\u00e7a institucional robusta abre espa\u00e7o para que outros agentes passem a ocupar o lugar de produtores leg\u00edtimos de conhecimento sobre as PICS. Consequentemente, a informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica divide espa\u00e7o com narrativas baseadas em experi\u00eancias individuais, promessas terap\u00eauticas generalizantes e conte\u00fados voltados prioritariamente ao engajamento nas plataformas digitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compreens\u00e3o desse fen\u00f4meno pode ser enriquecida a partir da articula\u00e7\u00e3o entre Douglas Kellner e Michel Foucault. Para Kellner, a cultura da m\u00eddia constitui um dos principais espa\u00e7os contempor\u00e2neos de produ\u00e7\u00e3o de sentidos, identidades e disputas simb\u00f3licas. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas difundem informa\u00e7\u00f5es, mas estabelecem quais temas ser\u00e3o vis\u00edveis, relevantes e dignos de reconhecimento social. A invisibilidade tamb\u00e9m comunica, pois contribui para a marginaliza\u00e7\u00e3o de determinados saberes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob outra perspectiva, Foucault demonstra que a produ\u00e7\u00e3o dos discursos considerados verdadeiros est\u00e1 profundamente relacionada \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de poder. O saber m\u00e9dico moderno consolidou-se historicamente como discurso privilegiado sobre o corpo, a doen\u00e7a e os processos terap\u00eauticos. Assim, pr\u00e1ticas que dialogam com racionalidades distintas frequentemente ocupam posi\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas nos dispositivos institucionais de legitima\u00e7\u00e3o do conhecimento, ainda que oficialmente reconhecidas pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A converg\u00eancia entre essas abordagens permite compreender que a baixa visibilidade das PICS n\u00e3o decorre apenas de escolhas editoriais ou comunicacionais, mas de rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de poder que influenciam quais conhecimentos recebem legitimidade institucional e quais permanecem marginalizados. Ao mesmo tempo, as redes sociais reconfiguram esse cen\u00e1rio ao democratizar parcialmente a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, embora tamb\u00e9m favore\u00e7am a circula\u00e7\u00e3o acelerada de desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A transforma\u00e7\u00e3o do ecossistema comunicacional descrita por Caio T\u00falio Costa relativiza o papel historicamente desempenhado pela m\u00eddia tradicional como principal mediadora da informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Se antes a produ\u00e7\u00e3o de not\u00edcias permanecia concentrada em organiza\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas, a nova m\u00eddia amplia a possibilidade de qualquer indiv\u00edduo produzir, compartilhar e fazer circular conte\u00fados, alterando os mecanismos tradicionais de legitima\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Esse cen\u00e1rio ajuda a compreender por que as PICS podem permanecer relativamente invis\u00edveis na m\u00eddia tradicional e, simultaneamente, alcan\u00e7ar elevada circula\u00e7\u00e3o nas redes sociais, onde a l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 menos dependente da media\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo discutir, em perspectiva te\u00f3rica, as rela\u00e7\u00f5es entre invisibilidade institucional, hipervisibilidade digital e desinforma\u00e7\u00e3o sobre as PICS. Como desdobramento da reflex\u00e3o apresentada, prop\u00f5e-se a realiza\u00e7\u00e3o de uma pesquisa quantitativa, posteriormente submetida ao Comit\u00ea de \u00c9tica em Pesquisa, destinada a investigar como os participantes da pesquisa percebem a presen\u00e7a das PICS nos diferentes ambientes comunicacionais e quais fontes consideram mais confi\u00e1veis para obter informa\u00e7\u00f5es sobre essas pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1. FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.1 COMUNICA\u00c7\u00c3O, PODER E PRODU\u00c7\u00c3O DE SENTIDOS: UMA LEITURA FOUCAULTIANA DA INFORMA\u00c7\u00c3O <\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A comunica\u00e7\u00e3o em sa\u00fade ultrapassa a fun\u00e7\u00e3o de transmitir informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas ou orientar comportamentos individuais. Ela constitui um campo de disputa simb\u00f3lica no qual diferentes discursos produzem sentidos, estabelecem verdades e influenciam pr\u00e1ticas sociais. Segundo Wolf<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> (2001), a not\u00edcia n\u00e3o representa um reflexo espont\u00e2neo da realidade, mas o resultado de um processo de sele\u00e7\u00e3o orientado por crit\u00e9rios de noticiabilidade, rotinas produtivas e valores profissionais do jornalismo. Assim, a visibilidade p\u00fablica de determinados temas depende menos de sua exist\u00eancia objetiva do que de sua capacidade de atender aos crit\u00e9rios que organizam a produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob essa perspectiva, compreender a visibilidade ou invisibilidade das Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares em Sa\u00fade (PICS) exige reconhecer que a circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre de maneira neutra, mas \u00e9 atravessada por rela\u00e7\u00f5es de poder que legitimam determinados saberes enquanto silenciam outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Michel Foucault<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a> compreende o discurso como pr\u00e1tica social produtora de realidade. Em sua perspectiva, os discursos n\u00e3o apenas descrevem o mundo, mas organizam modos de pensar, agir e reconhecer aquilo que passa a ser considerado verdadeiro. O poder, portanto, n\u00e3o se restringe \u00e0 coer\u00e7\u00e3o institucional, mas atua de forma difusa na produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o dos conhecimentos socialmente legitimados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo da sa\u00fade, essa din\u00e2mica torna-se especialmente evidente. A medicina cient\u00edfica consolidou-se historicamente como discurso hegem\u00f4nico, ocupando posi\u00e7\u00e3o privilegiada na produ\u00e7\u00e3o das verdades sobre o corpo, a doen\u00e7a e o cuidado. Esse processo n\u00e3o implica negar sua import\u00e2ncia para os avan\u00e7os sanit\u00e1rios, mas evidencia que outras formas de conhecimento frequentemente permanecem em posi\u00e7\u00f5es marginais, independentemente das evid\u00eancias cient\u00edficas dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foucault destaca que toda sociedade estabelece mecanismos que regulam quais discursos podem circular, quem possui legitimidade para enunci\u00e1-los e quais institui\u00e7\u00f5es det\u00eam autoridade para valid\u00e1-los. No contexto da sa\u00fade p\u00fablica, tais mecanismos deveriam influenciar diretamente a agenda midi\u00e1tica, as prioridades institucionais e a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o social acerca das diferentes possibilidades terap\u00eauticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As PICS inserem-se nesse cen\u00e1rio como um conjunto de pr\u00e1ticas que desafia modelos historicamente centrados na medicaliza\u00e7\u00e3o e na fragmenta\u00e7\u00e3o do cuidado. Embora reconhecidas oficialmente pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade desde a cria\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares (PNPIC), sua presen\u00e7a no debate p\u00fablico permanece significativamente inferior \u00e0 observada para outras interven\u00e7\u00f5es em sa\u00fade. Essa assimetria evidencia que o reconhecimento institucional, por si s\u00f3, n\u00e3o garante legitimidade simb\u00f3lica perante a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob a \u00f3tica foucaultiana, a reduzida circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre as PICS pode ser compreendida como resultado de dispositivos de poder que selecionam quais conhecimentos adquirem maior visibilidade social. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o, enquanto espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de discursos participam desse processo ao definir prioridades tem\u00e1ticas, selecionar fontes consideradas autorizadas e estabelecer enquadramentos narrativos capazes de influenciar a percep\u00e7\u00e3o coletiva. Essa din\u00e2mica \u00e9 sintetizada por Foucault ao afirmar que toda sociedade estabelece mecanismos pelos quais determinados discursos passam a funcionar como verdadeiros, enquanto outros permanecem marginalizados, (Foucault, p.12).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua &#8216;pol\u00edtica geral&#8217; de verdade, isto \u00e9, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as inst\u00e2ncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos; a maneira como se sanciona uns e outros; as t\u00e9cnicas e os procedimentos que s\u00e3o valorizados para a obten\u00e7\u00e3o da verdade; o estatuto daqueles que t\u00eam o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, a comunica\u00e7\u00e3o deixa de ser compreendida apenas como ve\u00edculo de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e passa a constituir elemento estrat\u00e9gico na constru\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es sociais sobre sa\u00fade. A forma como determinados assuntos s\u00e3o apresentados \u2014 ou simplesmente omitidos \u2014 interfere diretamente na forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, nas escolhas individuais de cuidado e at\u00e9 mesmo na implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao analisar a rela\u00e7\u00e3o entre discurso, poder e verdade, Foucault oferece importante aporte te\u00f3rico para compreender que a invisibilidade das PICS na comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o decorre exclusivamente da aus\u00eancia de evid\u00eancias cient\u00edficas ou de interesse jornal\u00edstico. Trata-se de um fen\u00f4meno produzido por rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de legitima\u00e7\u00e3o dos saberes, nas quais determinados modelos de cuidado ocupam posi\u00e7\u00e3o central enquanto outros permanecem perif\u00e9ricos, mesmo quando reconhecidos pelas pol\u00edticas p\u00fablicas nacionais e por organismos internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa compreens\u00e3o fundamenta a necessidade de investigar como os processos comunicacionais influenciam a percep\u00e7\u00e3o social sobre as PICS e de que maneira podem contribuir para ampliar o acesso da popula\u00e7\u00e3o a informa\u00e7\u00f5es qualificadas, favorecendo o exerc\u00edcio do direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e o fortalecimento da integralidade do cuidado preconizada pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A literatura sobre comunica\u00e7\u00e3o em sa\u00fade tamb\u00e9m evidencia que a circula\u00e7\u00e3o de discursos n\u00e3o ocorre em um espa\u00e7o social neutro. Diferentes atores institucionais, econ\u00f4micos e cient\u00edficos disputam legitimidade na defini\u00e7\u00e3o dos modelos de cuidado considerados socialmente relevantes. Nesse contexto, a hist\u00f3rica centralidade do modelo biom\u00e9dico e hospitaloc\u00eantrico, articulada a interesses profissionais, industriais e mercadol\u00f3gicos, constitui um dos elementos que podem direcionar a visibilidade atribu\u00edda \u00e0s diferentes pr\u00e1ticas em sa\u00fade. Todavia, sem abrir m\u00e3o deste horizonte te\u00f3rico, o presente estudo n\u00e3o pretende identificar rela\u00e7\u00f5es causais entre esses fatores e a cobertura midi\u00e1tica das PICS, limitando-se a investigar como essa visibilidade \u00e9 percebida pelos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>1.2 CULTURA DA M\u00cdDIA E A RECONFIGURA\u00c7\u00c3O DO ECOSSISTEMA COMUNICACIONAL DAS PR\u00c1TICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES EM SA\u00daDE<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compreens\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o em sa\u00fade como espa\u00e7o de disputa simb\u00f3lica torna-se mais consistente quando articulada \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es de Douglas Kellner<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> acerca da cultura da m\u00eddia. Para o autor, os meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas difundem informa\u00e7\u00f5es, mas produzem significados, constroem identidades, definem prioridades sociais e influenciam a forma como a sociedade interpreta a realidade. Como sintetiza Kellner, a cultura da m\u00eddia n\u00e3o apenas transmite conte\u00fados, mas participa da conforma\u00e7\u00e3o das formas pelas quais os indiv\u00edduos interpretam a realidade e constroem suas refer\u00eancias sociais, (Kellner, p.304). \u201c(&#8230;) argumentaremos que a televis\u00e3o e outras formas da cultura da m\u00eddia desempenham papel fundamental na reestrutura\u00e7\u00e3o, na identidade contempor\u00e2nea e na conforma\u00e7\u00e3o de pensamentos e comportamentos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa perspectiva, a comunica\u00e7\u00e3o constitui um processo ativo de constru\u00e7\u00e3o social dos sentidos. Os acontecimentos n\u00e3o adquirem relev\u00e2ncia p\u00fablica exclusivamente por sua import\u00e2ncia objetiva, mas tamb\u00e9m pelos crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o, enquadramento e circula\u00e7\u00e3o empregados pelos diferentes meios de comunica\u00e7\u00e3o. Assim, compreender a visibilidade das Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares em Sa\u00fade exige analisar n\u00e3o apenas sua institucionaliza\u00e7\u00e3o como pol\u00edtica p\u00fablica, mas tamb\u00e9m os ambientes comunicacionais nos quais essa pol\u00edtica circula e \u00e9 socialmente apropriada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historicamente, os meios tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o exerceram papel central na defini\u00e7\u00e3o da agenda p\u00fablica em sa\u00fade. Jornais, revistas, r\u00e1dio e televis\u00e3o atuaram como principais mediadores entre a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, as pol\u00edticas p\u00fablicas e a sociedade, selecionando temas, fontes e acontecimentos considerados de interesse coletivo. Esse processo contribuiu para consolidar determinados referenciais de cuidado, conferindo maior visibilidade \u00e0s abordagens biom\u00e9dicas, aos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e \u00e0 assist\u00eancia hospitalar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, o desenvolvimento das plataformas digitais modificou significativamente esse cen\u00e1rio. A circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o tornou-se descentralizada, permitindo que institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, pesquisadores, profissionais de sa\u00fade, influenciadores digitais, terapeutas e os pr\u00f3prios usu\u00e1rios passassem a produzir e compartilhar conte\u00fados em larga escala. As redes sociais ampliaram as possibilidades de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m intensificaram desafios relacionados \u00e0 qualidade das informa\u00e7\u00f5es, \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o e \u00e0 dificuldade de identifica\u00e7\u00e3o de fontes confi\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme Costa (2009, p.250), o ambiente digital relativizou o papel hist\u00f3rico da imprensa como principal mediadora da informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A possibilidade de qualquer indiv\u00edduo produzir e difundir conte\u00fados amplia a pluralidade informacional, mas tamb\u00e9m reduz os mecanismos tradicionais de verifica\u00e7\u00e3o e responsabiliza\u00e7\u00e3o editorial. Isso ajuda a compreender por que as PICS apresentam baixa presen\u00e7a na m\u00eddia tradicional e, simultaneamente, intensa circula\u00e7\u00e3o nas redes sociais:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim\u00e9tricas, as informa\u00e7\u00f5es dan\u00e7am conforme as necessidades do pr\u00edncipe eletr\u00f4nico, das difusas e interpoladas necessidades da m\u00eddia \u2013 al\u00e9m de terem sido vulgarizadas e facilitadas para a compreens\u00e3o m\u00e9dia do p\u00fablico ou, para conforto dos comunicadores, para compreens\u00e3o m\u00e9dia do \u2018grande p\u00fablico\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o eliminou a influ\u00eancia da m\u00eddia tradicional, mas produziu um ecossistema comunicacional h\u00edbrido, no qual diferentes atores disputam aten\u00e7\u00e3o, credibilidade e legitimidade. Enquanto os ve\u00edculos jornal\u00edsticos continuam exercendo importante fun\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00e3o e atribui\u00e7\u00e3o de credibilidade, as redes sociais favorecem maior velocidade de circula\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, amplia\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias compartilhadas e diversifica\u00e7\u00e3o das narrativas sobre sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso das PICS, essa reconfigura\u00e7\u00e3o apresenta caracter\u00edsticas particulares. Observa-se que a presen\u00e7a dessas pr\u00e1ticas na m\u00eddia tradicional permanece relativamente limitada quando comparada \u00e0 cobertura dedicada a procedimentos hospitalares, medicamentos, tecnologias diagn\u00f3sticas e descobertas biom\u00e9dicas. Em contrapartida, as redes sociais apresentam crescente volume de conte\u00fados relacionados \u00e0s PICS, produzidos por diferentes atores sociais, com distintos n\u00edveis de qualidade, fundamenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e intencionalidade comunicacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse cen\u00e1rio evidencia um paradoxo comunicacional. A maior circula\u00e7\u00e3o de conte\u00fados nas plataformas digitais n\u00e3o implica, necessariamente, maior acesso da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 informa\u00e7\u00e3o qualificada. Ao contr\u00e1rio, a coexist\u00eancia de conte\u00fados cient\u00edficos, relatos pessoais, estrat\u00e9gias de marketing, publicidade de servi\u00e7os e informa\u00e7\u00f5es sem respaldo t\u00e9cnico amplia a complexidade do processo de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento em sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As reflex\u00f5es de Kellner tornam-se particularmente relevantes nesse contexto ao demonstrar que a cultura da m\u00eddia n\u00e3o se limita \u00e0 transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, mas participa da constru\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es sociais e flerta com a busca de identidades. \u201cAssim, na modernidade, o problema da identidade consistia no modo como nos constitu\u00edmos, nos percebemos, nos interpretamos e nos apresentamos a n\u00f3s mesmos e aos outros\u201d. A visibilidade de determinados temas, a escolha das fontes consideradas leg\u00edtimas e os enquadramentos predominantes influenciam diretamente a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica acerca da credibilidade de diferentes formas de pertencimento e cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, investigar a comunica\u00e7\u00e3o das PICS exige compreender a atua\u00e7\u00e3o complementar \u2014 e, por vezes, concorrente \u2014 da m\u00eddia tradicional e das redes sociais. Mais do que identificar a quantidade de informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, torna-se necess\u00e1rio compreender como esses diferentes ambientes comunicacionais influenciam o conhecimento da popula\u00e7\u00e3o sobre as PICS, a percep\u00e7\u00e3o de sua legitimidade e o reconhecimento dessa pol\u00edtica p\u00fablica como direito assegurado pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa compreens\u00e3o fundamenta a presente proposta de pesquisa, que buscar\u00e1 analisar de que maneira diferentes fontes de informa\u00e7\u00e3o contribuem para a constru\u00e7\u00e3o da legitimidade social das PICS, considerando que a efetividade comunicacional das pol\u00edticas p\u00fablicas depende, cada vez mais, da intera\u00e7\u00e3o entre os diversos ambientes de circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>1.3 O PARADOXO DAS PR\u00c1TICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES EM SA\u00daDE: RECONHECIMENTO INSTITUCIONAL E INVISIBILIDADE COMUNICACIONAL<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A institucionaliza\u00e7\u00e3o das Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares em Sa\u00fade (PICS) representa um dos movimentos mais significativos de amplia\u00e7\u00e3o das possibilidades de cuidado no \u00e2mbito das pol\u00edticas p\u00fablicas brasileiras. Entretanto, esse reconhecimento formal contrasta com sua limitada presen\u00e7a nos processos comunicacionais, configurando um paradoxo que justifica a presente investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No cen\u00e1rio internacional, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) reconhece, h\u00e1 d\u00e9cadas, a relev\u00e2ncia das medicinas tradicionais, complementares e integrativas como componentes importantes para o fortalecimento dos sistemas de sa\u00fade. A publica\u00e7\u00e3o da <em>WHO Traditional Medicine Strategy 2014\u20132023<\/em> consolidou diretrizes voltadas \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o dessas pr\u00e1ticas pelos pa\u00edses membros, enfatizando quatro eixos principais: desenvolvimento de pol\u00edticas p\u00fablicas, garantia da qualidade e seguran\u00e7a, amplia\u00e7\u00e3o do acesso e uso racional das pr\u00e1ticas tradicionais e complementares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais recentemente, a OMS reafirmou esse compromisso ao publicar a <em>WHO Traditional Medicine Global Strategy 2025\u20132034<\/em>, documento que amplia a compreens\u00e3o das medicinas tradicionais como recursos capazes de contribuir para a cobertura universal de sa\u00fade, para o cuidado centrado na pessoa e para sistemas de sa\u00fade mais sustent\u00e1veis, integrados e culturalmente sens\u00edveis. A estrat\u00e9gia destaca que a comunica\u00e7\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o qualificada constituem elementos essenciais para a integra\u00e7\u00e3o dessas pr\u00e1ticas aos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, essas recomenda\u00e7\u00f5es encontram respaldo na PNPIC, institu\u00edda em 2006 pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. A pol\u00edtica reconhece oficialmente diversas pr\u00e1ticas integrativas como parte do SUS, fundamentando-se nos princ\u00edpios da universalidade, integralidade, equidade e participa\u00e7\u00e3o social. Ao longo dos anos, novas portarias ampliaram significativamente o conjunto de pr\u00e1ticas ofertadas na rede p\u00fablica, consolidando um processo cont\u00ednuo de institucionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da regulamenta\u00e7\u00e3o normativa, observa-se crescimento expressivo da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional envolvendo as PICS, com estudos publicados em diferentes \u00e1reas do conhecimento, avalia\u00e7\u00f5es de efetividade cl\u00ednica, pesquisas em aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, sa\u00fade mental, dor cr\u00f4nica, promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e qualidade de vida. Paralelamente, ampliou-se a oferta dessas pr\u00e1ticas em estados e munic\u00edpios brasileiros, bem como sua inser\u00e7\u00e3o em programas de forma\u00e7\u00e3o profissional e educa\u00e7\u00e3o permanente em sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob uma perspectiva estritamente institucional, portanto, n\u00e3o se verifica aus\u00eancia de reconhecimento das PICS. Ao contr\u00e1rio, h\u00e1 pol\u00edticas p\u00fablicas consolidadas, respaldo normativo, produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica crescente e recomenda\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas de organismos internacionais. Ainda assim, essa legitimidade n\u00e3o parece refletir-se na esfera comunicacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discrep\u00e2ncia entre reconhecimento institucional e visibilidade p\u00fablica sugere que a exist\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, por si s\u00f3, n\u00e3o garante sua apropria\u00e7\u00e3o social. O acesso da popula\u00e7\u00e3o aos direitos em sa\u00fade depende, em grande medida, da circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es capazes de tornar tais pol\u00edticas conhecidas, compreens\u00edveis e socialmente legitimadas. Nesse contexto, a comunica\u00e7\u00e3o deixa de desempenhar papel meramente informativo para assumir fun\u00e7\u00e3o estruturante na efetiva\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa constata\u00e7\u00e3o aproxima as contribui\u00e7\u00f5es de Foucault e Kellner. Se, por um lado, os regimes de verdade condicionam quais conhecimentos alcan\u00e7am valida\u00e7\u00e3o social, por outro, a cultura da m\u00eddia estabelece quais desses conhecimentos ocupar\u00e3o espa\u00e7o na agenda p\u00fablica. O resultado \u00e9 que pol\u00edticas oficialmente reconhecidas podem permanecer praticamente invis\u00edveis para grande parte da popula\u00e7\u00e3o quando n\u00e3o encontram espa\u00e7o nos fluxos comunicacionais predominantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pandemia de COVID-19 tornou ainda mais evidente a centralidade da comunica\u00e7\u00e3o na sa\u00fade p\u00fablica. A pr\u00f3pria Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade passou a tratar a infodemia<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> como desafio estrat\u00e9gico, reconhecendo que a abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00f5es, muitas vezes contradit\u00f3rias ou desprovidas de evid\u00eancias, interfere diretamente na capacidade das pessoas de tomar decis\u00f5es relacionadas ao cuidado em sa\u00fade. Nesse cen\u00e1rio, a produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o qualificada tornou-se componente indispens\u00e1vel das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, apesar dos avan\u00e7os nas discuss\u00f5es sobre desinforma\u00e7\u00e3o em sa\u00fade, observa-se que as PICS permanecem relativamente ausentes tanto dos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o quanto das estrat\u00e9gias sistem\u00e1ticas de comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica em sa\u00fade. Essa lacuna pode contribuir para o desconhecimento da popula\u00e7\u00e3o acerca dos servi\u00e7os dispon\u00edveis no SUS, reduzindo o acesso \u00e0s pr\u00e1ticas integrativas e limitando o exerc\u00edcio do direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente nesse ponto que se insere a presente proposta de pesquisa. Parte-se da hip\u00f3tese de que existe um descompasso entre a consolida\u00e7\u00e3o institucional das PICS e sua representa\u00e7\u00e3o nos processos comunicacionais, fen\u00f4meno que pode influenciar a percep\u00e7\u00e3o social sobre sua legitimidade, sua utiliza\u00e7\u00e3o pelos usu\u00e1rios do SUS e sua incorpora\u00e7\u00e3o ao cotidiano das pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade. Investigar esse descompasso significa compreender a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas como instrumento de divulga\u00e7\u00e3o, mas como elemento constitutivo da pr\u00f3pria efetividade das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>1.4 A COMUNICA\u00c7\u00c3O COMO DIMENS\u00c3O DA EFETIVA\u00c7\u00c3O DAS POL\u00cdTICAS P\u00daBLICAS: O DESAFIO DA HEGEMONIA DO PARADIGMA BIOM\u00c9DICO<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise da efetividade das pol\u00edticas p\u00fablicas em sa\u00fade costuma privilegiar aspectos relacionados \u00e0 formula\u00e7\u00e3o normativa, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, ao financiamento e \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de resultados. Embora esses elementos sejam indispens\u00e1veis, eles n\u00e3o esgotam os fatores que influenciam a consolida\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica. Entre a institucionaliza\u00e7\u00e3o e sua apropria\u00e7\u00e3o pela sociedade existe um campo de media\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas no qual a comunica\u00e7\u00e3o desempenha papel estruturante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte-se, neste estudo, da compreens\u00e3o de que a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o atua apenas como instrumento de divulga\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es governamentais, mas como processo capaz de produzir reconhecimento, atribuir legitimidade e influenciar a forma como a sociedade percebe diferentes modelos de cuidado. Sob essa perspectiva, a efetividade de uma pol\u00edtica p\u00fablica depende tamb\u00e9m de sua exist\u00eancia no espa\u00e7o comunicacional, onde discursos, narrativas e representa\u00e7\u00f5es sociais disputam visibilidade e reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa compreens\u00e3o torna-se especialmente relevante quando analisada \u00e0 luz da organiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos sistemas de sa\u00fade. Ao longo do s\u00e9culo XX, consolidou-se um paradigma biom\u00e9dico centrado na doen\u00e7a, no diagn\u00f3stico, na especializa\u00e7\u00e3o profissional, na incorpora\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e na assist\u00eancia hospitalar. Esse modelo produziu avan\u00e7os incontest\u00e1veis para a ci\u00eancia e para a assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade, contribuindo significativamente para o aumento da expectativa de vida, o controle de doen\u00e7as e o desenvolvimento de tecnologias diagn\u00f3sticas e terap\u00eauticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, a pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o dos perfis epidemiol\u00f3gicos, marcada pelo crescimento das condi\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas, do envelhecimento populacional e da necessidade de abordagens integrais do cuidado, evidenciou os limites de uma aten\u00e7\u00e3o predominantemente centrada na doen\u00e7a e no ambiente hospitalar. Nesse contexto, organismos internacionais, como a OMS, e pol\u00edticas p\u00fablicas brasileiras passaram a incentivar estrat\u00e9gias que valorizam a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, a preven\u00e7\u00e3o de agravos, a participa\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios e a integralidade do cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares em Sa\u00fade inserem-se nesse movimento de amplia\u00e7\u00e3o das possibilidades terap\u00eauticas. Sua incorpora\u00e7\u00e3o ao SUS n\u00e3o representa a substitui\u00e7\u00e3o do modelo biom\u00e9dico, mas a constru\u00e7\u00e3o de uma abordagem complementar, orientada pela integralidade e pelo reconhecimento das diferentes necessidades dos usu\u00e1rios. A pr\u00f3pria PNPIC estabelece que essas pr\u00e1ticas devem integrar a rede de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade de forma articulada \u00e0s demais a\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os do SUS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar desse reconhecimento institucional, observa-se que o paradigma biom\u00e9dico permanece predominante nos processos comunicacionais relacionados \u00e0 sa\u00fade. A cobertura jornal\u00edstica tende a conferir maior visibilidade a procedimentos hospitalares de alta complexidade, novas tecnologias, medicamentos, interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas e descobertas biom\u00e9dicas, enquanto a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, ao autocuidado, \u00e0s pr\u00e1ticas comunit\u00e1rias e \u00e0s PICS ocupam espa\u00e7o proporcionalmente reduzido na agenda p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa predomin\u00e2ncia n\u00e3o deve ser interpretada como consequ\u00eancia exclusiva das escolhas editoriais dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Ela tamb\u00e9m se relaciona \u00e0 hist\u00f3rica centralidade do paradigma biom\u00e9dico na organiza\u00e7\u00e3o dos sistemas de sa\u00fade, cujos referenciais cient\u00edficos, institucionais e econ\u00f4micos contribu\u00edram para consolidar determinados modelos de cuidado como socialmente mais vis\u00edveis do que outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme argumenta Foucault, os discursos socialmente legitimados s\u00e3o resultado de rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de poder que definem quais conhecimentos adquirem autoridade para circular como verdade. \u201cO poder n\u00e3o \u00e9 um objeto natural, uma coisa: \u00e9 uma pr\u00e1tica social e, como tal, constitu\u00edda historicamente\u201d<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Kellner complementa essa perspectiva ao demonstrar que a cultura da m\u00eddia participa ativamente da produ\u00e7\u00e3o desses significados, refor\u00e7ando determinados referenciais culturais e conferindo maior visibilidade aos discursos j\u00e1 reconhecidos socialmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob essa \u00f3tica, a comunica\u00e7\u00e3o tende a reproduzir, ainda que muitas vezes de forma n\u00e3o intencional, a centralidade do paradigma biom\u00e9dico. Ao privilegiar determinadas fontes, acontecimentos, institui\u00e7\u00f5es e formas de cuidado, contribui para consolidar uma representa\u00e7\u00e3o social da sa\u00fade fortemente associada ao ambiente hospitalar, \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0s tecnologias de alta complexidade. Em contrapartida, pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e ao cuidado integral podem permanecer menos conhecidas pela popula\u00e7\u00e3o, mesmo quando institucionalmente consolidadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse fen\u00f4meno permite compreender que a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas divulga pol\u00edticas p\u00fablicas, mas participa de sua pr\u00f3pria legitima\u00e7\u00e3o social. Quanto maior a presen\u00e7a de determinada pol\u00edtica nos processos comunicacionais, maiores tendem a ser seu reconhecimento p\u00fablico, sua incorpora\u00e7\u00e3o ao imagin\u00e1rio coletivo e sua apropria\u00e7\u00e3o pelos cidad\u00e3os. O movimento inverso tamb\u00e9m merece aten\u00e7\u00e3o: pol\u00edticas pouco vis\u00edveis tendem a enfrentar maiores dificuldades para serem reconhecidas como direitos efetivamente dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Wolf (2005), os meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas informam, mas selecionam acontecimentos segundo crit\u00e9rios de noticiabilidade, estabelecendo quais temas passam a integrar a agenda p\u00fablica. Os processos de gatekeeping e newsmaking evidenciam que a visibilidade jornal\u00edstica resulta de escolhas profissionais, rotinas produtivas e valores-not\u00edcia, e n\u00e3o exclusivamente da import\u00e2ncia social atribu\u00edda aos acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, a reduzida presen\u00e7a das PICS na comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica pode contribuir para um ciclo de invisibilidade. O menor conhecimento da popula\u00e7\u00e3o acerca dessas pr\u00e1ticas limita sua procura pelos servi\u00e7os, reduz sua presen\u00e7a no debate p\u00fablico e dificulta o reconhecimento social dessas pr\u00e1ticas, mesmo diante de sua consolida\u00e7\u00e3o normativa e do respaldo conferido por organismos nacionais e internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Prop\u00f5e-se, assim, compreender a comunica\u00e7\u00e3o como dimens\u00e3o constitutiva da efetiva\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas. Essa perspectiva amplia sua fun\u00e7\u00e3o tradicional de divulga\u00e7\u00e3o institucional e a reconhece como elemento estrat\u00e9gico para a produ\u00e7\u00e3o de sentidos, para a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e para o fortalecimento da cidadania em sa\u00fade. A efetividade de uma pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o depende apenas de sua exist\u00eancia formal, mas tamb\u00e9m de sua capacidade de tornar-se socialmente conhecida, compreendida e reconhecida como direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse contexto que as PICS assumem relev\u00e2ncia como objeto emp\u00edrico desta investiga\u00e7\u00e3o. Sua trajet\u00f3ria re\u00fane caracter\u00edsticas singulares: legitimidade normativa, reconhecimento internacional, inser\u00e7\u00e3o progressiva na rede p\u00fablica e crescente produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, coexistindo, entretanto, com limitada visibilidade comunicacional. Investigar esse aparente descompasso permitir\u00e1 compreender de que maneira os processos comunicacionais influenciam a constru\u00e7\u00e3o da legitimidade social das pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade, contribuindo para ampliar o debate sobre o papel da comunica\u00e7\u00e3o na consolida\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>&nbsp;2. PROPOSTA METODOL\u00d3GICA<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este artigo aponta a proposta metodol\u00f3gica de uma pesquisa quantitativa, de natureza aplicada, com objetivos descritivos e delineamento transversal, a ser desenvolvida ap\u00f3s aprova\u00e7\u00e3o pelo Comit\u00ea de \u00c9tica em Pesquisa, observando os princ\u00edpios estabelecidos pela Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Sa\u00fade. Todos os participantes ser\u00e3o convidados mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assegurando-se participa\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, anonimato, confidencialidade e liberdade para desist\u00eancia em qualquer etapa da pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo tem como finalidade analisar como cidad\u00e3s e cidad\u00e3os percebem a presen\u00e7a das PICS na m\u00eddia tradicional e nas redes sociais e como essa percep\u00e7\u00e3o constr\u00f3i sua legitimidade. A pesquisa foi motivada pelas reflex\u00f5es suscitadas durante uma oficina sobre Comunica\u00e7\u00e3o, M\u00eddia e Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares em Sa\u00fade, realizada em confer\u00eancia municipal de sa\u00fade na cidade de Resende, RJ. A experi\u00eancia permitiu identificar ind\u00edcios da necessidade de aprofundar, de forma sistem\u00e1tica, a investiga\u00e7\u00e3o acerca da influ\u00eancia dos diferentes ambientes comunicacionais na constru\u00e7\u00e3o do conhecimento p\u00fablico sobre as PICS. Os dados obtidos nessa atividade tiveram car\u00e1ter exclusivamente explorat\u00f3rio e contribu\u00edram apenas para a formula\u00e7\u00e3o do problema de pesquisa, n\u00e3o constituindo objeto de an\u00e1lise deste artigo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>3. CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/strong><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As PICS constituem, no contexto brasileiro, uma pol\u00edtica p\u00fablica consolidada do SUS, respaldada por recomenda\u00e7\u00f5es da OMS e por um conjunto de normativas que reconhecem sua contribui\u00e7\u00e3o para a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, a integralidade do cuidado e a amplia\u00e7\u00e3o das possibilidades terap\u00eauticas. Entretanto, o reconhecimento institucional dessas pr\u00e1ticas n\u00e3o parece ser acompanhado por equivalente visibilidade nos processos comunicacionais, evidenciando um descompasso entre sua consolida\u00e7\u00e3o normativa e sua apropria\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir das contribui\u00e7\u00f5es dos autores que fundamentam esta argumenta\u00e7\u00e3o, este artigo buscou compreender a comunica\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de sua fun\u00e7\u00e3o instrumental de divulga\u00e7\u00e3o, concebendo-a como espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o de sentidos, circula\u00e7\u00e3o de discursos e constru\u00e7\u00e3o de legitimidade social. Nessa perspectiva, a efetividade das pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o depende exclusivamente de sua formula\u00e7\u00e3o jur\u00eddica ou de sua implementa\u00e7\u00e3o administrativa, mas tamb\u00e9m da forma como s\u00e3o comunicadas, reconhecidas e incorporadas ao cotidiano dos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discuss\u00e3o proposta permitiu evidenciar que a predomin\u00e2ncia hist\u00f3rica do paradigma biom\u00e9dico nos processos comunicacionais pode influenciar a sele\u00e7\u00e3o dos temas que alcan\u00e7am maior visibilidade p\u00fablica, contribuindo para que pol\u00edticas voltadas \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e ao cuidado integral, como a PNPIC, permane\u00e7am relativamente perif\u00e9ricas na agenda comunicacional. N\u00e3o se trata de estabelecer oposi\u00e7\u00e3o entre diferentes modelos de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, mas de reconhecer que a diversidade de abordagens preconizada pelas pol\u00edticas p\u00fablicas e pelos organismos internacionais somente poder\u00e1 ser plenamente efetivada quando acompanhada por processos comunicacionais capazes de ampliar o acesso da popula\u00e7\u00e3o a informa\u00e7\u00f5es qualificadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m se discutiu que a transforma\u00e7\u00e3o do ecossistema comunicacional, marcada pela coexist\u00eancia entre m\u00eddia tradicional e plataformas digitais, introduz novos desafios para a comunica\u00e7\u00e3o em sa\u00fade. Se, por um lado, as redes sociais ampliaram as possibilidades de circula\u00e7\u00e3o de conte\u00fados sobre as PICS, por outro intensificaram a necessidade de compreender como diferentes ambientes comunicacionais influenciam a credibilidade das informa\u00e7\u00f5es, a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento p\u00fablico e o reconhecimento dessas pr\u00e1ticas como parte das pol\u00edticas p\u00fablicas do SUS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, prop\u00f4s-se compreender as PICS como objeto emp\u00edrico de uma investiga\u00e7\u00e3o situada no campo da Comunica\u00e7\u00e3o. O interesse central da pesquisa n\u00e3o reside apenas na an\u00e1lise da divulga\u00e7\u00e3o dessas pr\u00e1ticas, mas na compreens\u00e3o de como os processos comunicacionais participam da constru\u00e7\u00e3o da legitimidade social das pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade, influenciando o conhecimento da popula\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o de seus direitos e as possibilidades de acesso aos servi\u00e7os ofertados pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proposta metodol\u00f3gica apresentada neste artigo busca responder a essa problem\u00e1tica por meio de uma pesquisa quantitativa que investigar\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o entre h\u00e1bitos de consumo de informa\u00e7\u00e3o, credibilidade das diferentes fontes comunicacionais, conhecimento das PICS e reconhecimento dessa pol\u00edtica p\u00fablica, permitindo analisar como cidad\u00e3s e cidad\u00e3os percebem a presen\u00e7a das PICS na m\u00eddia tradicional e nas redes sociais. Espera-se que os resultados permitam identificar elementos capazes de subsidiar estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o mais efetivas, contribuindo para fortalecer o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e ampliar a visibilidade de pol\u00edticas p\u00fablicas j\u00e1 institucionalmente consolidadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, entende-se que as reflex\u00f5es desenvolvidas neste artigo ultrapassam o caso espec\u00edfico das PICS. Ao discutir a comunica\u00e7\u00e3o como dimens\u00e3o relevante para a efetiva\u00e7\u00e3o do que as m\u00eddias tradicionais visibilizam e consequentemente legitimam e como as redes sociais ampliam a circula\u00e7\u00e3o de temas sem a mesma media\u00e7\u00e3o editorial caracter\u00edstica do jornalismo profissional, abre-se espa\u00e7o para investiga\u00e7\u00f5es futuras sobre outros assuntos cuja concretiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m depende da circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es qualificadas, da produ\u00e7\u00e3o de sentidos e do reconhecimento social. Espera-se que esta pesquisa contribua n\u00e3o apenas para o debate sobre a visibiliza\u00e7\u00e3o ou aus\u00eancia dela, mas contribua para ampliar a compreens\u00e3o acerca dos processos pelos quais a m\u00eddia tradicional e as redes sociais atribuem diferentes n\u00edveis de visibilidade e legitimidade \u00e0s PICS, evidenciando que a circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o participa da constru\u00e7\u00e3o social das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4. REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRASIL. Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. <strong>Pol\u00edtica Nacional de Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares no SUS: atitude de amplia\u00e7\u00e3o de acesso.<\/strong> 2. ed. Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">COSTA, Caio J\u00falio. <strong>\u00c9tica, jornalismo e nova m\u00eddia: uma moral provis\u00f3ria<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1996.<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FOUCAULT, Michel. Microf\u00edsica do poder. Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KELLNER, Douglas. <strong>A cultura da m\u00eddia<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Ivone Castilho Benedetti. Bauru, SP: EDUSC, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WOLF, Mauro. <strong>Teorias da Comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>. 6. ed. Lisboa: Editorial Presen\u00e7a, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WORLD HEALTH ORGANIZATION. <strong>WHO Traditional Medicine Strategy 2014\u20132023.<\/strong> Geneva: WHO, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WORLD HEALTH ORGANIZATION. <em><strong>WHO Traditional Medicine Global Strategy 2025\u20132034<\/strong>. <\/em>Geneva: WHO, 2025.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Por outras palavras, n\u00e3o se pode descrever a sele\u00e7\u00e3o apenas como uma escolha subjetiva do jornalista, mesmo que seja, profissionalmente motivada; \u00e9 necess\u00e1rio v\u00ea-la como um processo complexo, que se desenrola ao longo de todo o ciclo de trabalho, realizado as inst\u00e2ncias diferentes \u2013 desde as fontes at\u00e9 o simples redator \u2013 e com motiva\u00e7\u00f5es que n\u00e3o todas imediatamente imput\u00e1veis \u00e0 necessidade direta de escolher as not\u00edcias a transmitir. (WOLF,&nbsp; 2001, p.241)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> FOUCAULT, Michel. Microf\u00edsica do Poder. Rio de Janeiro. Graal, 1979.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Kellner, Douglas. A Cultura da M\u00eddia. Bauru, SP. EDUSC, 2001. A obra traz an\u00e1lise te\u00f3rica e discuss\u00f5es concretas sobre algumas das formas mais populares e influentes da cultura contempor\u00e2nea veiculada pela m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> O termo <em>infodemia<\/em> foi popularizado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) para designar o excesso de informa\u00e7\u00f5es, muitas vezes imprecisas ou falsas, que se espalha rapidamente sobre um determinado assunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> MACHADO, Roberto. &nbsp;\u201cPor uma genealogia do poder\u201d, Introdu\u00e7\u00e3o de Microf\u00edsica do Poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que algumas pr\u00e1ticas de cuidado conquistam espa\u00e7o nas redes sociais, mas ainda encontram pouco espa\u00e7o na m\u00eddia tradicional? 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