Nada de política essa semana: só música

De repente, o falatório sussurrado da plateia arrefece quando os holofotes iluminam o palco. Em seguida entra em silencio o quarteto. Todos vestidos iguais. De verde e amarelo. Muito bem vestidos, por sinal. Cabelos cortados do mesmo estilo, passos coreografados. A voz do apresentandor do espetáculo chega animada em off: “Com vocês, os quatro magnificos, Zero Um, Zero Dois, Zero Três e Zero Quatro, que formam o espetacular: Os Va-ga-buuuun-dos!!”

O público irrompeu numa explosão de aplausos até que a voz em off interrompe a manifestação dizendo que um dos cantores, de braço erguido, queria se pronunciar. Com seu eficiente microfone de lapela um dos jovens, depois identificado como Zero Um, falou: “Não. Não somos mais ‘Os Vagabundos’, aliás, nome que sempre nos deu muito orgulho. Mas esse era o nome que usávamos enquanto trio. Agora como quarteto temos o nome de Grupo Vocal Zero a Esquerda”.

A platéia explodiu em nova avalanche de aplausos e foram ouvidos gritos esparços de “Mitos!”, Mitos!”. E a voz em off indagou ao jovem: “O que vocês vão cantar?” e Zero Um respondeu: “Vamos cantar uma paródia da música ‘ParaTodos’, de um compositor comunista, um tal de Chico. Parodiamos também o título que agora é ‘ParaTolos”. E a voz em off vibrou: “E com voces, o quarteto Zero a Esquerdaaaaa!”. O playback da melodia de sotaque nordestino se espalhou e o quarteto soltou a voz.

PARATOLOS
O meu pai é um fascista
Também é miliciano
Dizem que é trambiqueiro
Não trabalha há muitos anos
O seu mestre soberano
Foi Olavo o feiticeiro

Esse falso brasileiro
Que inventou essa roubada
Elevou nossa quadrilha
Pra roubar de mão armada
Somo machos da pesada
Só um usa sapatilhas

Mas se usa sapatilhas
Não pertence aquele time
É um cara hospitaleiro
A pistola o redime
Ter um primo não é crime
Nosso mano é bom parceiro

Rachadinha é só dinheiro
É o maior dos nossos vícios
Há quem curta passarinhos
Rala e rola de orifícios
Mas temos nossos princípios
Homem só nosso paizinho

Pra entrar no nosso ninho
Quem é ‘bão’ passa no teste
O Queiroz é tiro certo
Pouca gente há que preste
O Crivela é uma peste
João Dória fique esperto

Tem agente encoberto
Da ABIN de olho para
Prender todos comunistas
São bandidos, tá na cara
Ditadura, pura e clara
Pra acabar com esses artistas

O meu pai é um fascista
Também é miliciano
Dizem que é trambiqueiro
Não trabalha há muitos anos
A Imprensa passa o pano
E ele ferra o brasileiro

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