Diário do Confinamento

Acordei ouvindo canto de pássaros. A manhã chegou numa claridade que achei feliz. A luz vaza a cortina bege do quarto. Sensação agradável de despertar bem num dia que parecia um convite à vida. Mas logo essa sensação é sufocada pela pesada realidade desses dias inusitados de guerra surreal. Noventa dias de quarentena. Noventena? E que dia é hoje afinal? Terça, Quarta, Quinta-feira? É fim de semana? Os dias tem a mesma cara todos os dias. Hoje é Segunda, amanhã é Segunda, depois é Segunda. Pertenço a grupo de risco e o confinamento não tem data para acabar. As perspectivas na são claras sobre a cura. Vacina, remédio. Cloroquina? Nem pensar. Quem sabe, autoimunização da humanidade, por algum percentual de contaminação de manada… Sei lá. Tudo muito vago. É como olhar pra frente e não conseguir enxergar mais do que dois palmos além.

Nonagésimo segundo dia de isolamento. Acordo com a tola ilusão de que estou num mundo normal. Tá, o mundo meio normal no qual vivíamos até alguns dias. Mas logo vem a sensação de desanimo, de não ter mais futuro ou algo assim. Fazer o quê e para quê? Ligo a TV. As notícias que chegam falam do mal que nos cerca, nos sufoca. O número de contaminados e mortos cresce. Estados Unidos… Brasil. Os campeões do horror. No banheiro aciono a play list e ouço Flavio Venturini cantar que alguém se chamava moço. E homem. E sonhos. E que os sonhos não envelhecem. É. Pode ser.

Nonagésimo quinto dia. Lembro com rara precisão do sonho estranho que tive essa noite. Quase um pesadelo. Eu fora sequestrado por extraterrestres. Imobilizado num cômodo metálico da nave eu era levado para o planeta deles. Fora do nosso sistema solar, certamente. Sem saber quando chegaria e nem o que seria feito de mim. Meu sonho é como me sinto nesse pesadelo real de confinamento, sem perspectivas. E as notícias dão conta de que tudo ainda vai piorar.

Nonagésimo sétimo dia. Acordo naquele estado depressivo que vem me visitando com alguma regularidade. A repetição do nada já me faz mal há algum tempo, devo confessar. Penso que seria a hora de alguma notícia forte, que sacudisse, quebrasse a rotina. Tipo: “Mataram o Presidente da República numa quebrada da área metropolitana de Brasília”. Nossa! Isso daria uma sacudida nos dias. Os telejornais transformariam o fato em uma novela interminável. Os filhos 01, 02 e 03 dariam entrevistas e postariam nas redes sociais juras de vingança e fazendo arminha com os dedos. Cacete, quanta ação! Que animação!

Nonagésimo oitavo dia. Mais um dia com cara de qualquer dia. Cara de outros dias. Gêmeos. A única diferença para os demais foi ter visto passar em minha rua – vi pela janela, claro – uma pequena cavalgada. Um pequeno grupo. Apenas quatro cavaleiros. Não deu pra ver com clareza quem eram eles. Mas o sujeito do cavalo branco era a cara do preside norte-americano. Acho que ninguém usa um topete daqueles. Intrigou-me ainda o que montava o cavalo baio. Muito magro. Esquelético.

Fechei a cortina e me sentei ainda meio atordoado com a visão. O magrelo parecia levar uma foice em uma das mãos. Credo! O confinamento está me fazendo ver coisas. Ligo a TV e as notícias parecem as mesmas de ontem, de anteontem, e de antes, e de antes. O que muda são os números. Sempre crescentes. Em contrapartida há a narrativa otimista de analistas diversos apostando que, passada a desgraceira, ainda sem sabermos as dimensões exatas de seu tamanho, nós estaremos vivendo num outro mundo. E segundo essas previsões, num mundo melhor, mais solidário, etc. Estamos num fim de ciclo.

Nonagésimo nono dia. Acordo num motoperpétuo, como naquele filme de sessão da tarde sobre o ‘Dia da Marmota’ numa pequena cidade americana. Lembram? Sempre o mesmo dia. Pelo e-mail um amigo me enviou a gravação de uma assombrosa canção lançada por Bob Dylan. Quase 17 minutos. O velho menestrel aos 78 anos está vivíssimo. Fala do assassinato de Kennedy e deixa rastros. O lobisomem. Bush pai. CIA. Um complô que todos estão carecas de saber. Mas a reflexão é sobre para que tipo de mundo apontou aquela encruzilhada em Dallas. E o verso definitivo: Son, The Age of the Antichrist has just only begun (Filho, a era do anticristo apenas começou). Pandemia? Acidente, erro de cálculo, controle de todos via confinamento? Redemoinho na mente. Vacina com nano chip. O passo final para o controle geral? ‘Tudo sob controle’, diz a manchete inglesa. Que mundo novo será esse? Lembrei meus sequestradores extraterrestres. Nos filmes de ficção científica os visitantes dizem: “Levem-nos ao seu líder”.

Anoitece, também dentro de min. Vou para a cama, mais aturdido e confuso que nas noites anteriores. Não sei como acordarei amanhã. Certamente em mais um dia com a cara de ontem, de anteontem etc. Mas parece que há algo com cheiro de despedida no ar. O fim desse nosso mundo? Ciclone bomba, prisão de tucanos? Sinal dos tempos. Como será o mundo pós-pandemia? Vou me deitar. Não sei em que mundo vou acordar amanhã, mas alimento a esperança de ouvir uma notícia forte, que sacudisse, quebrasse a rotina. Tipo: descobriram a vacina contra o Covid-19 ou: “Mataram…

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