Encontro reúne crianças e adolescentes Sem-Terra e quilombolas em Quatis

Crianças assistiram a apresentações de música, teatro e dança durante encontro (Foto: Divulgação)

No último sábado, dia 2, um evento realizado na Praça da Matriz, no Centro de Quatis, veio desmentir o que algumas emissoras de TV com transmissão em rede nacional pregam em suas programações: a “doutrinação” das crianças pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), cujos integrantes são vistos como criminosos por grupos conservadores de direita no Brasil.

Ao invés de “doutrinar”, o núcleo do MST no Sul Fluminense promoveu um dia todo especial a crianças de 6 a 12 anos (estendido ao público adolescente), que participaram de oficinas de filosofia, de origami (dobradura japonesa), de produção de bonecas, de capoeira e também tiveram a oportunidade de ouvir histórias e ver apresentações de um grupo de teatro da região. Ao todo, participaram crianças e adolescentes de três assentamentos do MST (os assentamentos Roseli Nunes e Terra da Paz, de Piraí, e Irmã Dorothy, de Quatis) e de uma comunidade quilombola (do Quilombo de Santana, de Quatis).

– O objetivo do Movimento dos Sem Terrinha é inserir as crianças na luta de seus pais e os fazerem reconhecer enquanto pertencentes do grupo do MST – explica uma das integrantes da Coordenadoria Regional do MST e assentada do Roseli Nunes, Amanda Matheus.

A inserção dos filhos de trabalhadores do MST no Sul Fluminense em eventos promovidos pelo movimento é considerado um importante passo para a luta deles no que se refere tanto na aquisição de recursos como habitação quanto nos investimentos agrários. Especialmente para aqueles que moram no assentamento Irmã Dorothy, que foi desapropriado em 2014, mas ainda não completou o processo de regularização das 53 famílias assentadas.

– Esse processo de regularizar a situação dos trabalhadores Sem-Terra está muito demorada. O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) precisa agilizar essa regularização, essas famílias precisam muito das políticas públicas para a produção de alimentos e para obterem uma moradia digna. Sem essa regularização, fica difícil pras famílias conseguirem crédito-habitação e crédito para produção – explica Amanda.

Amandinha participa do Encontro dos Sem Terrinha desde criança, e nesta edição ajudou a família nos bastidores do evento

Enquanto ainda esperam pela regularização, as famílias do Irmã Dorothy, que foi criado em 2005, possuem uma rotina de vida muito difícil. Enquanto os pais trabalham o dia inteiro no campo, cultivando alimentos, as crianças precisam se deslocar para as escolas que ficam a quilômetros de distância do assentamento, no Centro de Quatis. “As crianças ainda têm o transporte coletivo para ir à escola (que nem sempre estão em perfeito estado de conservação), mas outras pessoas que precisam ir pra cidade têm acesso ao ônibus comunitário uma vez ao dia e ainda por cima é pago. Muitas vezes acabam recebendo carona dos motoristas dos coletivos escolares”, relembrou a coordenadora.

Já os assentamentos de Piraí, que foram criados praticamente na mesma época do assentamento de Quatis, de acordo com Amanda, já estão regularizados e recebem os créditos da parte do Governo Federal. “As famílias do Roseli Nunes e do Terra da Paz já avançaram muito na questão da produção de alimentos e dos serviços de educação e saúde. Tanto que há três anos o conceito de agroecologia é trabalhado com os assentados, mesmo que os alimentos ainda não sejam certificados como orgânicos. Com os investimentos sociais, essas famílias conseguem produzir e produzir as cestas de alimentos para venda”.

Durante o Encontro dos Sem Terrinhas, que é realizado na Região Sul Fluminense pela Coordenadoria Regional do MST desde o ano de 2010, a jovem Amanda Silva, a Amandinha, de 19 anos, ajudou a mãe, a produtora rural Ana Lúcia Lopes na cozinha da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, cedida para o evento. Enquanto a mãe e o pai preparavam o almoço das crianças participantes, Amandinha preparou o bolo a ser servido no final do encontro. Até quatro anos atrás, ela ainda participava dos encontros ao lado de outras crianças e adolescentes.

– Participei dos Encontros dos Sem-Terrinha até os 15 anos. Nesses eventos, a gente constrói a luta do nosso grupo ao lado das crianças e dos adolescentes, para que um dia eles possam dar continuidade ao nosso trabalho, através de atividades e com a colaboração de vários parceiros – respondeu Amandinha, que mora com a família no Irmã Dorothy.

A mãe da jovem fala da luta para regularizar sua propriedade. “Hoje eu tenho seis anos de assentamento, e o meu sonho é ter a propriedade definitiva da minha terra. Na minha propriedade eu tenho produção de banana e de abacaxi, além de outros alimentos. Só não consigo ter uma produção melhor por falta de investimento”, relembra Ana Lúcia. Segundo a organização do evento, que contou com a parceria do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe), quase todos os alimentos utilizados na preparação das refeições foram cedidos pelos assentamentos participantes do evento.

Na região Sul Fluminense, além desses assentamentos, o MST ainda conta com outros assentamentos (ou acampamentos): o Comunidade Terra Livre (de Resende), o Vida Nova (Barra do Piraí) e o Mariana Crioula (Valença).

Comunidade Quilombola de Santana também participou do encontro mostrando o resgate de sua cultura

RESGATE E RESISTÊNCIA DA CULTURA QUILOMBOLA
Convidada para participar do encontro, a Comunidade Quilombola de Santana, localizada a 15 km do Centro de Quatis, levou para o evento uma oficina de capoeira com o líder cultural do quilombo e capoeirista Reinaldo de Paula, o Mestre Tim. Ele teve um importante papel no resgate cultural da população local.

– Há nove anos, a gente introduziu na comunidade o projeto África em Mim, que promoveu o resgate das manifestações culturais dos ancestrais, entre elas o jongo, o samba e a capoeira. Nesse último caso, realizamos o trabalho ao lado de três voluntários (José Roberto Alves da Silva, Laércio Lourenço da Silva e Sidney Dadam, o Mestre Da Lua, do Grupo Berimbau de Angola) há nove anos no quilombo e há três em um projeto no bairro Jardim Independência – cita Mestre Tim.

O líder cultural revela que mesmo com resultados positivos, a comunidade segue travando uma luta pra manter suas raízes. “Ficamos entre 10 e 12 anos sem essas manifestações culturais em nossa comunidade, que nos tempos dos meus pais e meus avós tinham um valor mais forte. Conseguimos fazer esse resgate especialmente nas comemorações festivas. A ainda assim temos muitos empecilhos para essa preservação da nossa cultura, especialmente por parte do poder público, que ao invés de aproveitar o nosso trabalho, contrata gente de fora pra desenvolver esses mesmos trabalhos que fazemos”, lamenta Tim.

Ele destaca que a rotina dos quilombolas também é difícil. Entre as dificuldades enfrentadas por eles está a da frequência escolar. As 33 crianças dos três vilarejos que compõem a comunidade sofrem para assistir às aulas, uma vez que a escola onde se encontram matriculadas (Escola Municipal Quilombola de Santana Irmã Elizabeth) é distante dos locais onde moram. E o ônibus escolar, não raro, apresenta problemas de manutenção. Já os jovens que estudam no Ensino Médio dependem de outro ônibus do estado pra estudarem no Centro.

Por outro lado, a comunidade comemora o sucesso de um projeto agrícola iniciado há quase um ano. Uma parceria entre os quilombolas e a Embrapa possibilitou que as famílias pudessem produzir seus alimentos e também vender, nos moldes dos trabalhadores dos assentamentos. “Nossa produção é baseada na agricultura socioambiental, ou seja, que preserva a natureza através do cultivo de produtos orgânicos. Ao longo de um ano, estamos conscientizando nossa comunidade para a importância de uma agricultura sustentável, tanto que a previsão é de que a colheita dos nossos produtos comece em um mês”, conclui.

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