Solidão clara

Talvez o que me encante no cedo da manhã seja um mero moralismo de interior ditado pela ideia de que deus ajuda quem cedo madruga. Mas logo eu. Tão pouco afeito a esse deus que através de um botão de urna eletrônica intervém nos rumos do mundo. Ateu? Vêm então me perguntar com tochas acesas e capuzes. Não sei, pois antes é preciso saber o que é deus. O que de pronto tenho a certeza, não é um super herói recém saído de um filme da Marvel ou DC. Ó, meu amigos, como é difícil dizer a esses inquisidores que aquilo do que eles falam nada mais é do que o deus deles. Algo de que se sentem possuidores. E assim criam uma mórbida sentença: possuir para poder se submeter.

Eu que sou um homem de muita fé, que já vi o divino na flor do maracujá, no sabor de um sorvete de coco na beira da praia, no riso solto com amigos tão agradáveis quanto essa brisa, direi que o cedo da manhã me atrai pelo seu silêncio. Pela solidão clara. O mundo anda muito barulhento e nessas horinhas de sossego é quando se pode ler um trecho de um Guimarães Rosa. Talvez tenha tentado fugir do mero moralismo do interior e caído novamente em suas malhas, já que vou erguer a ideia de que a noite foi feita para se dormir.

Dou risada de minha condição tão imperfeita! Tão propensa a cair em ciladas! Eis-me aqui! Diariamente costurando e descosturando minhas linhas de força: tecendo um pano encardido, suado e lavado. Pano para toda obra!

Rafael Alvarenga
Escritor e professor de Filosofia
ninhodeletras.blogspot.com.br

Foto: Reprodução/Pixabay

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