Mãe vegana

A mãe é vegana. E se comporta bem dentro dos limites de sua promessa nutricional. Firme sobre os desígnios de sua ideologia. E não se limita a casa devido aos obstáculos do mundo proibido; o cheiro instigante das alcatras e frangos grelhados; o chiado da gordura aromática das linguiças temperadas; os corações de galinha bem bronzeados. Ela não se amedrontava. Foi levar o filho para ver e ouvir o teatro de rua, mas a cadeira que lhe sobrou foi logo aquela ao lado do rapaz que assava e vendia churrasquinho. E daí? A mãe vegana estava cheia de munição. Cenoura crua em hastes quadradas; brócolis cozido no vapor; biscoito integral; brownie de biomassa de banana verde; suco de uva integral; água mineral. E todo esse arsenal ela direcionava para a boca do filho que trazia no colo. Investia decidida, contudo a criança tinha outro alvo. E o mirava com gula. Com os olhos arregalados julgava cada um dos movimentos do churrasqueiro. Em certos momentos balançava a cabeça afirmativamente. Aprovando o rapaz que cuidava da carne sem deixar passar do ponto. O teatro já havia começado e a mãe virava o filho para o palco sem sucesso. O cheiro da carne assando o atraía. Sentado sobre a perna esquerda da mãe a criança tinha a visão da churrasqueira encoberta. Por isso se contorcia. Inclinava o corpo, girava a cabeça. E por pouco não balbuciou sua primeira frase completa: vire os espetinhos de frango. Forçou e conseguiu ficar em pé sobre a coxa da mãe.

Por um erro na contabilidade o rapaz assou um salsichão a mais. Quando viu que o bebê levantava o braço pedindo e a mãe olhava – ainda que com ar de desespero – ele avisou, sem saber da dieta: saiu agora.

Foto: Reprodução/Internet

Rafael Alvarenga
Escritor e professor de Filosofia
ninhodeletras.blogspot.com.br

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