Em respeito ao inverno

Os melros voltaram nessas tardes frias de céu azul. Mas também me impressionou bastante o vendedor de algodão doce passeando pelo bairro durante a agradável quentura do meio-dia. Outra que voltou foi a lua cheia. Agora anda bastante exibida se esfregando toda pelo corpo negro da noite nua que não veste sequer uma camisola de seda-nuvem. Pela manhã é que a coisa muda, embora volte o sereno. Camadas e mais camadas finas formando uma anágua volumosa capaz de impedir aos mais concupiscentes olhos a visão de um pedaço da pele de mundo. Nessas horas, é preciso tatear e seguir devagar explorando cada metro escondido de vida.

Voltaram as xícaras de café quente. Mas essas jamais desaparecem completamente, é verdade; no entanto, agora elas ganharam a regalia de um foro privilegiado. Voltaram os pardais, coleirinhos e até beija-flores para se banhar alegremente no chafariz ligado para molhar a grama. Volta, inclusive, o sono mais profundo e longo, aquele que chega cedo e às 8h da noite já seduz os corpos em direção à cama. Mas me impressiona que durante o inverno não haja uma espécie de acordo universal entre os homens a fim de diminuir a produção, o ganho, o consumo, o trabalho e até mesmo o conhecimento com o digníssimo intuito de nos deixar ficar um pouco mais sob os cobertores.

Voltou o inverno! E essa crônica não é um canto de lamento. É sim uma reverência a essa estação que só pode ser aproveitada por aqueles que dela se aproveitam.

Rafael Alvarenga
Escritor e professor de Filosofia
ninhodeletras.blogspot.com.br

Você pode gostar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O limite de tempo está esgotado. Recarregue CAPTCHA.