Resende: de princesa a uma cidade violenta!

Na quarta-feira, dia 8, a partir das 9 horas, membros do Conselho de Ordem Pública de Resende se reunirão para tratar de forma urgente sobre a crescente onda de violência que vem assolando o município nos últimos meses. O encontro acontece no momento em que repercutiu nas redes sociais um tiroteio ocorrido dentro de um ônibus da Viação São Miguel, na noite de segunda-feira, dia 6. A cidade que ostentou o título de “princesinha do vale” se transformou numa cidade violenta.

Segundo relatos de passageiros da linha 285, um homem (identificado como Biscoito) que estava no interior do ônibus que faz a linha Vicentina-Surubi foi abordado por outros dois, que teriam tentado atirar nele quando o veículo estava trafegando entre os bairros Surubi Velho e Novo Surubi. O líder comunitário Jesus Fialho – que confirmou presença no evento de quarta-feira – estava dentro do ônibus quando ouviu os disparos.

— Como acabou acontecendo esse tiroteio no ônibus onde eu estava, e fui convidado para participar, estarei na reunião pra falar sobre o assunto. Eu havia acabado de sair da Câmara, e peguei o ônibus pra ir embora. Na hora que a gente estava chagando no Novo Surubi, aconteceu esse fato. Se acertou eu não sei, só sei que haviam dois caras dentro do ônibus. Quando eles chegaram no bairro, um saiu pela porta do meio e o outro pela de trás, e começaram a atirar em outro homem que estava do lado de fora. O motorista acabou fechando a porta e deixou os homens pra trás – explicou

Fialho fala da gravidade da falta de segurança no município: “Vamos ver se a gente discute sobre isso lá amanhã, pois temos que começar a trabalhar com isso. A coisa está ficando crítica. Estamos querendo voltar a fazer o café comunitário. Temos que discutir, pois quando acontecem essas coisas é porque a coisa está ficando ruim pra gente. Há dois meses, deram um tiro perto da minha porta, um na frente do outro. E parece que foram presos. Isso já está ficando banal!”.

Outra líder comunitária e também moradora do Novo Surubi, Joana Nascimento, revela que esta é a terceira vez que um ônibus da empresa é atingido por tiros no bairro. “Há uns dois meses, um outro ônibus da mesma linha foi alvejado com vários tiros quando estava contornando a Rua da Torre, aqui no bairro. Já o primeiro caso eu desconheço, mas lembro que também já aconteceu”, cita Joana.

Segundo o gerente da São Miguel, Rodrigo Camargo, a empresa teria recebido informações de que duas pessoas, uma delas armada, entraram dentro do ônibus. E que a arma estava apontada apenas para o motorista, mas não houve disparos. O outro comparsa chegou a tirar um passageiro de dentro do ônibus, e ambos saíram, ainda segundo o gerente. “As pessoas ficaram bastante abaladas, inclusive o motorista”, informou.

HOMICÍDIOS DOBRAM E TENTATIVAS TRIPLICAM
Ainda que não tenha resultado em mortos ou feridos, o incidente dentro do coletivo aponta que agosto já começou violento no município. Na última quinta-feira, dia 2, ocorreram duas tentativas de assassinato envolvendo dois adolescentes com idades entre 15 e 17 anos, na Baixada da Olaria.

Segundo o noticiado pela imprensa local, eles foram baleados nas mãos e ficaram com escoriações no corpo após serem abordados por outros dois homens. O relato foi feito por familiares das vítimas à Polícia Civil. Os adolescentes foram atendidos no Hospital de Emergência, mas já receberam alta.

Isso mostra que a violência está crescendo novamente em Resende. E o ano de 2018 tem tudo para superar 2017 nas estatísticas, tanto em homicídios quanto em suas tentativas. Dados oficiais do Instituto de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro (ISP-RJ) apontam um aumento significativo nesses números.

Somente nos seis primeiros meses deste ano, foram 63 tentativas de assassinato, três vezes e meia a mais que na mesma época em 2017, quando 18 pessoas tiveram suas vidas ameaçadas. Ao todo, foram contabilizadas 50 tentativas de assassinato no ano passado. Mas os assassinatos não ficam muito atrás nesta estatística.

De janeiro a junho deste ano, foram 28 homicídios, quase o dobro de casos registrados no mesmo período em 2017, quando ocorreram 16 assassinatos. No total, o ano de 2017 fechou com 42 assassinatos.

HOMEM E ADOLESCENTE ASSASSINADOS
Julho ainda não entrou para as estatísticas do ISP, mas o mês não ficou atrás e poderá em breve potencializar esses dados. Somente em assassinatos foram cinco, entre eles um feminicídio, este último contra a depiladora Jandira Moreira Landim, de 46 anos, que foi encontrada morta pelo companheiro e pelos familiares no último dia 5. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou que ela sofreu traumatismo craniano com lesão encefálica.

Apesar de ter prestado depoimento a polícia, o companheiro de Jandira chegou a fugir, mas foi encontrado na casa de uma ex-namorada e preso no último dia 26, uma quinta-feira, por suspeita de ter agredido a depiladora em casa no bairro Alegria Velha.

A imprensa registrou nos dias seguintes mais quatro assassinatos em Resende, o último deles na madrugada do dia 15. Na verdade um duplo homicídio: o serralheiro Márcio José da Silva, de 39 anos, que morava no Novo Surubi, e o estudante Douglas Eduardo da Silva Souza da Rocha, de 16 anos. Segundo a polícia, eles foram baleados na casa do adolescente, no bairro Paraíso, por quatro homens encapuzados que invadiram a residência. Ambos foram atingidos na região do tórax. Eles chegaram a ser levados para o Hospital de Emergência, mas não resistiram aos ferimentos.

Outra vítima de homicídio do mês foi o pedreiro Eric Corrêa da Silva, de 37 anos. Segundo a polícia, o corpo dele foi encontrado no final da manhã do dia 13, às margens do rio Paraíba dos Sul, no Acesso Oeste, por moradores do local, com as mãos amarradas e fios envoltos ao corpo, além de marcas de tiros na cabeça e no tórax.

E no dia 22, mais um homem foi assassinado. Uílian da Silva Gomes Correa, de 33 anos, foi morto com mais de 20 tiros durante a madrugada no bairro Morro do Cruzeiro. Segundo informações da polícia, homens encapuzados e usando gandola (abrigo do Exército) invadiram a casa dele e efetuaram os disparos.

E durante todo o mês, três pessoas sofreram tentativa de homicídio. Duas delas após um tiroteio entre facções criminosas no bairro Cidade Alegria, registrado dia 17. Segundo a polícia, a troca de tiros aconteceu em um bar, na Rua dos Carajás. Um casal que estava no local foi atingido.

Na semana anterior (uma quarta-feira, dia 11), no bairro Paraíso, Kennedy de Jesus Silva, de 22 anos, foi atingido com 11 tiros no rosto, pescoço e abdômen. De acordo com a PM, o crime aconteceu no bar de familiares da vítima, na Rua São Fidélix.

JUNHO SANGRENTO
Julho registrou cinco assassinatos e junho foram quatro homicídios. No dia 20 daquele mês, o corpo do autônomo Carlos Alberto Santos da Silva, de 32 anos, conhecido como Carlinhos, foi encontrado no início da tarde daquele dia com dois tiros nas costas, um no peito e outro no braço esquerdo enquanto passava pela Rua Padre Miguel, no bairro Lavapés.

Três dias antes, um tiroteio registrado dia 17, matou três pessoas e feriu outras três nos bairros Vicentina II, Santo Amaro e na localidade do Marrocos. Na época, policiais e bandidos também trocaram tiros, assustando os moradores desses bairros.

As investigações da polícia apontam que a violência nessas localidades são frutos das disputas de território entre traficantes de facções criminosas rivais do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro, nos bairros Vicentina e Cidade Alegria.

Este não foi o único tiroteio registrado em junho. Na tarde do mesmo dia da morte de Carlinhos, o bairro Baixada da Olaria virou cenário de um conflito entre policiais e criminosos, que trocaram tiros com os agentes da Polícia Militar nas proximidades da Escola Municipal Marieta Salles Cunha, deixando funcionários, professores e alunos em pânico. Na ocasião, ninguém ficou ferido.

Nas redes sociais, uma internauta se pronunciou após assistir uma matéria publicada em uma emissora de TV regional, e se revoltou com a reportagem feita pelos jornalistas da emissora.

– Bom dia (…) eu gostaria de saber se eles foram entrevistar a direção da escola Marieta Salles Cunha e da creche? Antes de falar asneira no programa! No momento do tiroteio ontem (quarta-feira, dia 20) na baixada tinha alunos na quadra, foi uma correria, como vocês têm coragem de dizer que os alunos estavam na sala de aula? A pré-escola estava no refeitório lanchando! Como vocês falam o que não sabem? Os alunos foram dispensados mais cedo e não no horário normal como vocês disseram! Antes de falar o que não sabem pra passar a tranquilidade q não está tendo em Resende, passem no local e conversem com quem realmente viveu o caso, e depois falem. O QUE ESTOU FALANDO É O QUE VI E OUVI FUNCIONÁRIOS FALANDO ONTEM NA ESCOLA, EU VI O DESESPERO DAS CRIANÇAS FUNCIONÁRIOS E PAIS – revoltou-se a moradora, em post publicado um dia depois.

GOVERNOS E SEGURANÇA
Mas esta não é a primeira vez que Resende se vê a margem das facções criminosas de uma maneira tão assustadora. A violência cada vez mais crescente no município no início dos anos 2000 também incomodava.

Resende havia deixado de lado a tranquilidade interiorana depois que passou a experimentar um crescimento econômico nos anos de 1990 com a vinda de novas indústrias e serviços. Mas a percepção governamental, no entanto, foi bem diferente do que vem acontecendo atualmente.

No ano de 2002, preocupado com o crescimento da criminalidade, o governo do então prefeito Eduardo Meohas (1997-2004) começou a elaborar o Plano Municipal de Segurança, lançado em maio de 2003, com o objetivo de impedir o crescimento dos índices de violência.

Para isso, contou com o levantamento de estatísticas realizadas por parte da ONG Viva Rio. O plano também incluía a adoção de outras medidas de segurança, dentre elas instalação de câmeras de segurança, capacitação da Guarda Municipal e das Polícias Civil e Militar, e a criação de um Conselho Municipal de Segurança Pública.

As medidas adotadas por Meohas provocou inicialmente críticas e muitos debates na sociedade local. Em junho do mesmo ano, o jornal BEIRA-RIO promoveu um evento no plenário da Câmara Municipal que reuniu políticos, autoridades da segurança e estudantes universitários, além da população. A preocupação com a implementação de medidas sociais, a capacitação das polícias e o tratamento das informações policiais na imprensa foram abordados.

MELHORIAS EM POUCO TEMPO
No ano de 2004, a ONG Viva Rio divulgou um novo levantamento apontando que a criminalidade havia diminuído no ano de 2003, em comparação aos quatro anos anteriores (entre 1999 e 2002), com quedas em quase todos os índices. Homicídios e tentativas e estupros diminuíram, enquanto os furtos aumentaram, devido a dificuldade de se combater esse tipo de crime. Meohas defendeu que os índices foram resultado da implementação do plano no ano anterior.

No encerramento de sua gestão, Meohas não conseguiu atingir todas as metas com o plano, já que na ocasião as câmeras de segurança ainda não haviam sido instaladas, o que aconteceu apenas durante o governo de José Rechuan Júnior (2009-2016). Ainda assim, Meohas fechou o governo com um investimento de R$ 1,5 milhão não apenas na segurança, mas também em projetos sociais, o que reduziu a violência.

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