Possibilidade de perder direitos adquiridos

Durante essa semana os trabalhadores do país grudaram os olhos e ouvidos nos noticiários para entender melhor todas as propostas do governo para a reforma da previdência. A cada projeto de reforma mais o trabalhador vai ter que se dedicar e menos tempo vai sobrar para usufruir de uma aposentadoria tranquila e esperada. A exemplo de outros países, o nosso também aperta o cerco. Não existem boas previsões para o futuro. Todas são muito opacas e inconsistentes.

Do lado de cá, em virtude desses anúncios, me vi temerosa com a possibilidade de perder os direitos adquiridos. Respirei fundo e tomei coragem. Em um e-mail covarde e breve, solicitei que a agente de pessoal finalizasse e desse entrada no meu processo para a despedida da minha carreira de professora de Ensino Médio em escola pública.

Já tenho idade e tempo de serviço, mas meu coração ainda não estava preparado. Sei que ainda posso contribuir, mas o clima de incerteza me deixou sem opção. Não posso arriscar.

Ser professora para mim foi a realização do sonho primário e do sonho que me acompanhou ao longo da vida. Sou filha de professores e cresci aprendendo a admirar os meus. Durante o tempo em que exerci o magistério cometi alguns erros e sei também que tive muitos acertos. Inspirei algumas pessoas a seguir a carreira, mas também com meu jeito de ser e de ver a vida. Portanto, por alguns fui querida e por outros nem tanto. Nesse ofício muitas vezes fiz o papel de mãe, de amiga, confidente e até de Santo Antonio. Em tempos de cartas e bilhetes, me fiz de pombo-correio entregando correspondências para os tímidos e ajudando a formar casais, pois apostava na felicidade dos namoros nascedouros e dos amores pueris e necessários do início da vida adulta. De muitos estudantes para os quais fui professora cheguei a repetir a dose sendo também professora de seus filhos e, não incomum, de muitos membros de uma mesma família. Com isso fiz bons e queridos amigos.

Vi muitos estudantes terem suas vidas ceifadas prematuramente. Meu coração em luto recordou bons momentos vividos e guardei silêncio.

E sendo esse trabalho a realização de um sonho não é difícil entender o quanto está sendo sofrido para mim essa decisão e o quanto me entristece pensar que não vou ter mais o convívio com adolescentes e fazer novos amigos.

E, claro, vou sentir saudades dos colegas de oficio, com quem partilhei alegrias e tristezas. Sinto medo de perder o contato, mas alguns já me tranquilizaram e vou acreditar nessas promessas.

Sei que vou me dedicar a outras coisas e tenho mais desafios. Mas nesse trabalho, especialmente, residia boa parte da minha realização profissional. Começo a me despedir e meu coração não se aquieta. Para algumas pessoas pode ser incompreensível. Eu deveria estar aliviada. Mas não. Não. Não estou.

Peço desculpas por esse momento de desabafo, mas na minha opinião, quando alguma coisa tem significado intenso e profundo, precisa ser partilhado. Precisa ser gritado.

E aqui estou.

Ângela Alhanati
contato@angelaalhanati.com.br
Livre pensadora exercendo seu direito à reflexão

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