Nenhum natal teve tanto o significado de natal quanto aquele em que passei no hospital com meu pai

Nenhum natal teve tanto o significado de natal quanto aquele em que passei no hospital com meu pai.

Em dezembro de 2013 eu sabia que aquele seria seu último natal. Minha mãe negava essa realidade para se defender da dor. Eu precisava enfrentar e pensar mais nele do que em mim. Logo ele que sempre fez questão de reunir toda família nessa data festiva não podia ficar sem essa comemoração. Minha irmã se deslocou com os dois filhos. Meu marido me segurou as mãos. Fizemos a festa.

Na varanda do segundo andar, quase em frente ao seu quarto, arrumei uma mesa natalina com o que foi possível. Nos enfeitamos e celebramos a vida, a união, o amor e o renascimento. Ele se divertiu, riu, contou histórias e me abraçou tão apertado quanto sua frágil saúde permitiu.

Durante a reunião fez um pedido: Angela, minha filha, você sabe que as coisas estão ficando difíceis, pois com minha aposentadoria não consigo mais fazer as festas que fazia. Será que a partir do próximo ano você poderia fazer o natal em sua casa? Ele também negava sua partida e tentava disfarçar. Quem sabe assim a morte o esqueceria ou talvez fizesse uma curva antes de lhe apanhar de jeito?

Mas porque logo eu, a mais pobre das filhas? Ele poderia solicitar isso a qualquer um dos irmãos, mas me pediu porque sabia que eu era a que mais se parecia com ele e faria. Também, como ele, faço questão de todos juntos, não importa o sacrifício que tenha que ser feito. Gosto da família reunida, de celebrar a felicidade. Ele sabia que eu faria o possível para continuar. Ele sabia que o amor sempre foi a tom e o compasso, o cimento e a liga da nossa amizade, dos nossos de sangue e dos emprestados que a nós se juntaram, formando o que chamamos de família de irmãos.

Assim tem sido desde então e nesse ano não vai ser diferente. Minha casa está enfeitada e penso na ceia de natal. Mesmo afirmando que nunca gostei muito dessa festividade – o natal me causa um estranho mal-estar que não sei explicar – eu vou realizar o seu sonho, porque ele continua em mim. Ele vive lindo dentro do meu coração e não vou usar a tristeza para lhe homenagear, mas a alegria e a vontade de viver. Isso sim era ele. Com colete, embornal de lona, vara e molinete, passarinhos e chapéu com uma peninha do lado.

Desejo a todos um feliz natal com o significado que essa data representa: o nascimento, o renascimento, o continuar da vida. Que as famílias se unam mesmo que para isso precise de algum sacrifício. Que a alegria aconteça para todos e que a felicidade encontre morada nos corações. É hora de celebrar o que temos de melhor: nossa porção humana que deseja a paz, o bem e o amor.

Ângela Alhanati
contato@angelaalhanati.com.br
Livre pensadora exercendo seu direito à reflexão

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