A moça que espera alguém

A moça espera alguém. E o calor, ainda que vulcânico, não é suficiente para fazê-la desistir. Seus olhos visitam o celular. Mas querem mesmo encontrar quem ainda demora. A moça resiste. Seu vestido é fino. Leve como a pele fria e verde de uma rã. Seus cabelos é que hoje – talvez somente hoje – sejam longos demais. Não faz mal, embora faça calor. Pois se transformaram em algo com que se preocupar nesta tarde, quando espera alguém que não chega. A moça junta o feixe de fios com as mãos e joga, ora para trás do ombro esquerdo, ora para trás do direito. E assim se ocupa. Ai da moça se seus cabelos fossem curtos nesta tarde quente e não houvesse mais o que fazer além de esperar quem não chega.

A moça vai ficando. E há quem lhe olhe suspeitando sua espera; apostando em sua decepção: Homem não presta! Pensa outra moça que adoraria esperar alguém.

O que mais incomoda a moça que espera é saber que os outros já sabem da sua espera.

Até o celular, amigo de tantas horas mortas, insiste em dizer o tempo e preocupá-la. O que pode fazer uma moça que há tanto espera alguém? A moça vai para o portão. O fim de sua espera há de passar por ali. Entretanto também não passa. Mas logo depois do portão há um ponto de ônibus com uma gente que se renova a cada luz verde do sinal. Ali se sente salva. Ninguém saberá que espera. E isso já lhe conforta um tanto do incomodo que é esperar alguém que não chega.

Rafael Alvarenga
escritor e professor de Filosofia
www.blogspot.ninhodeletras.com

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