24092017

Palmeira de jardim

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Eu vi a palmeira que cresce para enfeitar o jardim na entrada do prédio na zona sul da cidade. Um jardim pequeno. Não o culpo pela estreiteza chilena de seu corpo, que, aliás, é todo verde, brilhoso, lustrado e com folhas jovens; as pedras do chão, formando círculos perfeitos, são lavadas e bem escovadas. A terra chega em sacos é higienizada, sem micróbios e bichos de pé. Como deve ser chato ser planta nesse jardim! Disputa não há, pois tudo foi metricamente programado. Não há planta que possa se atrever a ter mais luz que outra. E a noite a fotossíntese é obrigatória, pois os holofotes iluminam tudo de baixo para cima.

Sei que a palmeira crescia rente ao muro. Tendo sempre uma de suas folhas espalmada nas costas do prédio vizinho. Era de doer! Aquela folha parecendo uma mão aberta contra o cinza do paredão como se o quisesse empurrar. Mas o paisagista vinha e não via isso. Jamais pensou em mudar a palmeira de lugar, naquele projeto ela precisava ficar no canto.

A palmeira se entristeceu. Amarelava as grandes folhas antes do tempo e as tombava no chão sobre as onze-horas e os lírios que não suportavam o golpe. Vinha o porteiro, o jardineiro, o zelador, o síndico. Mas quem decidia era o paisagista dono do projeto. Toda semana era uma folha que nascia e outra que caía. A palmeira percebeu que chamava a atenção e se esforçou na produção assassina de si mesma. Disseram que aquilo estava estranho, perigoso, descontrolado. A palmeira que não entendia nada de construção civil imaginou que chegariam o prédio vizinho um tanto para o lado, e que então ela viveria palmeiramente bem.

Aconteceu nada disso. Chamaram um especialista e ele sentenciou: Solo de aterro. Terra fraca. Basta uma aplicação de um bom NPK. A planta ficará forte e as folhas não vão cair mais. Todos acreditaram e obedeceram. Apenas a palmeira teve vontade de sair andando e se atirar no mar.

Rafael Alvarenga
Escritor e professor de Filosofia
ninhodeletras.blogspot.com.br

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