24042017

Lixo, mato e crescimento de cidade favorecem aparecimento de cobras na cidade

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Moradores da Itapuca encontraram duas cobras em terreno baldio. Maioria dos animais é da espécie cascavel

Moradores da Itapuca encontraram duas cobras em terreno baldio (apontadas nas setas). Maioria dos animais é da espécie cascavel

Nos últimos meses, a população de Resende está em alerta com o aumento do número de cobras que vêm aparecendo em diversos bairros. Nas redes sociais, internautas vêm postando muitas fotos dos répteis encontrados em matagais, ruas e até residências. E a preocupação tem uma razão ainda mais grave: a falta de soro antiofídico nos postos não apenas do município, mas também em localidades vizinhas.

Um dos casos ocorridos em Resende foi o de um senhor de mais de 80 anos picado por uma cobra na zona rural de Engenheiro Passos, em novembro do ano passado. Não conseguindo encontrar o soro, a vítima levou mais de oito horas para conseguir ser medicada, provocando sequelas em sua saúde, pois ficou em coma por algumas semanas e problemas renais.

O jornal BEIRA-RIO também registrou outro caso de um cachorro que teria sido mordido. De acordo com os donos do animal, que moram no bairro Morada da Montanha, ainda que não saibam qual foi o agente causador da mordida no boxer de 4 anos, não é incomum o surgimento de cobras nos terrenos que rodeiam a casa deles. Tanto que há seis anos, uma das filhas relatou que havia visto uma “minhoca grande” que na verdade era uma cobra.

Terrenos sem limpeza e capina são os que mais atraem o réptil

Terrenos sem limpeza e capina são os que mais atraem o réptil

Nos últimos meses, os bairros de região da Grande Alegria e Acesso Oeste (Jardim Esperança, Itapuca, Morada da Montanha, Mirante da Serra, Mirante das Agulhas, entre outros) têm registrado uma grande infestação dos animais. Só no bairro Casa da Lua, segundo o post de um internauta, em apenas um dia foram encontradas 12 cobras cascavéis. Outro internauta entrou em contato informando que um vizinho teve que matar uma cobra no bairro Morada da Colina.

E aproveitando o assunto, o jornal entrevistou o biólogo e professor do Centro Universitário de Barra Mansa (UBM) Carlos Alberto dos Santos Souza, mestre em Comportamento e Biologia Animal pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Ele fala sobre o que pode estar favorecendo o aparecimento dos animais em bairros considerados urbanos em Resende.

– Normalmente, as serpentes (cobras) são mais avistadas em períodos com elevadas médias de temperatura do ar, como a primavera e principalmente o verão, resultando em aumento de atividade destes animais. Mas adversidades climáticas, como o aumento na intensidade de chuvas em nossa região também podem forçar a migração destes animais na busca de áreas mais estáveis – explica o biólogo.

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Biólogo pede a moradores que não matemas cobras e peçam ajuda do Corpo de Bombeiros

Segundo Carlos Alberto, apenas um pequeno número de espécies são peçonhentas e podem ser responsáveis por acidentes com os seres humanos (ofidismo). “No Brasil, temos cerca de 431 espécies de serpentes, mas somente 17,6% aproximadamente são peçonhentas (76 espécies). Além disso, as serpentes são importantes agentes no controle do crescimento populacional de muitos outros animais, entre eles os roedores”.

O biólogo ainda destaca outros fatores importantes. “Embora diversos motivos possam justificar seu aparecimento próximo as moradias, o crescimento das cidades sobre as áreas de florestas, falta de limpeza em terrenos, geração de resíduos como atração as suas principais presas e a falta de seus predadores naturais próximas as cidades são as principais causas para o constante aparecimento de serpentes em bairros”.

Carlos Alberto recomenda aos moradores de bairros próximos a áreas verdes vistoriar e limpar constante seus terrenos. “Não é aconselhável o plantio de espécies de plantas que formem moitas ou permitir o acúmulo de resíduos e outros materiais que possam constituir abrigos para as serpentes ou suas presas, pois elas tendem se manter escondidas no ambiente”.

O biológo cita que não existem listas atualizadas para a região do Médio Vale do Paraíba ou para Resende, mas estima-se que o número de espécies seja um pouco acima de 80 (fora as invasoras), sendo aproximadamente 10% delas peçonhentas. Entre elas destacam-se as corais-verdadeiras, jararacas, jararacuçus, cotiaras e cascavéis.

MATANÇA É PROIBIDA POR LEI
Carlos Alberto também fala de outros cuidados a serem seguidos pelos moradores. “O uso de equipamentos de proteção individual como botas, luvas, perneiras, aventais, calças e camisas com mangas compridas é sempre uma recomendação prudente para pessoas que trabalham no campo, com limpeza de terrenos ou afins. Nas moradias, deve-se tampar possíveis abrigos, instalar telas de proteção em casas com telhados ou janelas, manter quintais limpos, evitar colocar as mãos em locais sem boa visibilidade, entre outros cuidados”.

O especialista pede à população que sempre entre em contato com um profissional especializado e evite matar os animais encontrados. “Na ausência de profissional especializado para conter o animal deverá ser acionado o Corpo de Bombeiros para tomar as medidas necessárias para remoção do animal. É importante salientar que as serpentes são animais silvestres e também são protegidos por lei, sendo considerado crime mantê-las em cativeiro ou matá-las”.

Ele reitera que em casos de acidentes, as pessoas deverão ser imobilizadas e encaminhadas rapidamente às unidades médicas (mesmo que não disponham de soro antiofídico) para que os médicos possam encaminhá-las para unidades mais aparelhadas, caso se faça necessário, ou diagnosticar o quadro clínico da pessoa a partir dos sintomas apresentados para proceder com o tratamento necessário. “Mesmo que haja certeza de que se trata de uma espécie de serpente não peçonhenta é recomendável que a pessoa acidentada procure atendimento em unidades médicas mais próximas de sua casa”.

Carlos Alberto ainda esclarece que as complicações apresentadas pela demora no atendimento variam de acordo com a composição química do veneno de cada espécie, a quantidade de veneno inoculado e das características individuais das pessoas acidentadas (como, idade, peso corporal e condições de saúde), podendo elevar o risco de morte. Quanto às sequelas, a maioria está relacionada a complicações locais e a fatores de risco, como o uso de torniquete, picada em extremidades (dedos de mãos e pés) e retardo na administração da soroterapia. Entre as mais comuns destaca-se a amputação de membros.

RESENDE VIRA POLO DE VACINAS ANTIVENENOS
Nesta terça-feira, dia 11, profissionais da Defesa Civil e das secretarias de Saúde de Resende, Porto Real, Itatiaia, Barra Mansa, Rio Claro e Quatis participaram de um seminário sobre acidentes com animais peçonhentos.

O Seminário faz parte da informação continuada dos profissionais que trabalham em áreas de proteção ambiental, Guarda municipal, unidades de saúde e transporte de pacientes pós-acidente com animais peçonhentos. O evento, promovido pela Prefeitura de Resende através do Centro de Referencia em Saúde do Trabalhador (Cerest), foi realizado na sede da Associação Comercial de Resende (Aciar).

Aproximadamente cem profissionais ouviram palestras de especialistas, o biólogo Claudio Machado, do Instituto Vital Brazil; o médico Marco Antonio de Carvalho Neto e a enfermeira sanitarista de Resende, Natalia da Costa Campos, que compartilharam dados de acidentes com animais peçonhentos no Brasil e no estado do Rio.

O evento é o primeiro realizado depois que Resende foi anunciada como Polo de Vacinas Antivenenos. Com isso, o Hospital Municipal de Emergência de Resende se transformou na principal unidade de saúde da região Sul Fluminense e Médio Paraíba para atendimento a pacientes vítimas de picadas.

Fotos: Divulgação e Reprodução da Internet

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